Milly Lacombe muda o tom com o Flamengo e transforma Almada em deboche sobre ego

A análise de mercado envolvendo Corinthians, Palmeiras e Flamengo expôs, mais uma vez, como parte da imprensa esportiva trata temas semelhantes com pesos diferentes quando a camisa rubro-negra entra na pauta. Ao comentar a possível renovação de Memphis Depay no Corinthians, a tentativa do Palmeiras por Danilo e o interesse do Fla em Thiago Almada, Milly Lacombe adotou registros distintos para situações que pediam o mesmo rigor jornalístico: cautela financeira para um, reflexão estrutural para outro e ironia carregada para o clube carioca. O episódio não se resume a uma frase infeliz. Ele revela uma forma de enquadrar o Rubro-Negro como excesso, vaidade ou problema, mesmo quando a pergunta exigia apenas uma análise objetiva sobre encaixe tático, elenco e estratégia de mercado.
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No caso do Corinthians, a abordagem foi crítica, mas cuidadosa. Memphis voltou ao debate depois de uma Copa ruim, uma relação mais fria com a torcida e uma operação que, pela condição financeira do clube paulista, naturalmente deveria acender todos os alertas. Milly reconheceu que seria “muito dinheiro” e que o Corinthians não deveria fazer “essa loucura” a menos que encontrasse uma negociação que coubesse no bolso alvinegro. A crítica existiu, mas veio em tom de dúvida, quase de ponderação: será que cabe? Será que existe formato possível? Será que o vínculo com a torcida esfriou? Nada de deboche, nada de caricatura, nada de reduzir o clube a uma piada sobre desorganização ou vaidade.
Quando o assunto passou ao Palmeiras, a discussão sobre Danilo ganhou outra camada. O valor pedido pelo Botafogo foi tratado como estratosférico, mas a análise caminhou para o mérito do jogador, o contexto do futebol brasileiro e a lógica de vender talentos cedo para recomprá-los depois por cifras muito maiores. Milly chamou Danilo de “jogadoraço”, disse que faria diferença no Palmeiras, lamentou o vai e vem financeiro do mercado nacional e ainda sustentou que o volante deveria ter sido mais utilizado pela Seleção. Mais uma vez, houve crítica ao sistema, ao preço e ao modelo, mas com respeito técnico ao atleta e sem transformar a ambição palmeirense em motivo de escárnio.
Quando chega o Flamengo, muda a régua
A virada aparece quando o apresentador introduz o Flamengo. A pergunta era clara: o clube tem Thiago Almada como alvo, admite abrir os cofres para tentar convencer o Atlético de Madrid, e a chegada do argentino colocaria na mesma equação nomes como Paquetá, Arrascaeta e Carrascal. O caminho natural seria discutir função, desenho de time, hierarquia técnica, encaixe, possibilidade de titularidade, alternativas de escalação e impacto no elenco. Era uma oportunidade perfeita para analisar futebol. Em vez disso, a resposta veio com a velha moldura: o Flamengo “gosta de dizer que quer ser o Real Madrid do Brasil”, empilha craques, deixa o treinador resolver quem fica no banco e administra egos.
Essa escolha não é neutra. Ao falar do Corinthians, a preocupação foi o bolso. Ao comentar o Palmeiras, a reflexão foi o mercado. Ao tratar do Flamengo, a pauta virou arrogância, acúmulo e ego. Thiago Almada desapareceu da análise. Paquetá, Arrascaeta e Carrascal, citados na pergunta como parte de um debate técnico relevante, também foram deixados de lado. O que poderia ser uma avaliação sobre qualidade, versatilidade e disputa interna virou uma leitura rasa sobre o clube querer parecer grande demais. A diferença de tom salta aos olhos porque o próprio tema oferecia matéria para um comentário mais sofisticado.
Almada não é um jogador qualquer. É campeão do mundo pela Argentina, passou pelo Botafogo, pertence ao Atlético de Madrid e reúne características que poderiam ser discutidas com profundidade: mobilidade entre linhas, capacidade de condução, criatividade no último terço, finalização de média distância, jogo associativo e possibilidade de atuar por dentro ou partindo dos lados. Em um Flamengo que já tem Arrascaeta, Paquetá e Carrascal, a pergunta jornalística é excelente: ele vem para ser titular? Disputa posição com quem? Muda o desenho? Vira opção de rotação pesada? Permite alternância de sistema? A resposta passou longe disso.
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A caricatura do clube que “empilha craques”
A expressão “empilhar craques” tenta transformar força de elenco em defeito moral. Clubes grandes montam grupos fortes. O Real Madrid faz isso. O Manchester City faz isso. O Bayern fez durante anos. O Palmeiras tenta fazer quando pode. O Corinthians, mesmo endividado, discutiu Memphis. O Botafogo, sob SAF, gastou alto para competir. Quando é o Flamengo que pensa em qualificar o elenco, surge a insinuação de excesso, ego e ostentação. A crítica ao planejamento é legítima; a caricatura preguiçosa, não.
Há debate real a ser feito sobre o Flamengo. Contratar Almada faria sentido financeiro? O clube precisa de mais um meia-atacante? Há prioridade maior em outra posição? Como manter equilíbrio salarial? Qual seria a reação de atletas consagrados diante de mais concorrência? Como preservar minutos para jogadores importantes sem criar ambiente pesado? Essas são perguntas boas. O problema é que nenhuma delas aparece quando a análise se contenta em repetir que o Fla quer ser o “Real Madrid do Brasil” e vai colocar um monte de craques para o treinador administrar ego. Isso pode render frase de impacto, mas não entrega conteúdo.
A frase também ignora que elenco forte não é sinônimo automático de desordem. Ter opções qualificadas pode ser virtude quando há calendário pesado, lesões, convocações, suspensões e competições simultâneas. O Flamengo vive uma rotina em que Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil, Libertadores e torneios internacionais exigem profundidade. A pergunta correta não é se há craques demais, mas se existe plano para usar bem esses atletas. A resposta deveria avaliar modelo de jogo, gestão de minutos e compatibilidade entre características. Reduzir tudo a vaidade é uma forma de fugir da análise.
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Imparcialidade não é ausência de opinião
Ninguém exige que comentarista esportivo seja neutro como parede. Opinião faz parte do trabalho. O problema é vender análise como imparcial e, quando um clube específico entra no debate, mudar o vocabulário, o tom e o enquadramento. Se há rigor financeiro para o Corinthians, que haja o mesmo rigor para Flamengo e Palmeiras. Se existe boa vontade técnica para Danilo, que Almada também receba uma avaliação futebolística. Se o mercado brasileiro merece ser criticado por inflacionar repatriações, que a crítica valha para todos os clubes que participam dessa espiral.
A má vontade aparece menos no que se diz e mais no que se escolhe não dizer. No caso do Palmeiras, houve tempo para falar de formação, valorização, Seleção, retorno ao Brasil e qualidade do jogador. No caso do Flamengo, não houve o mesmo esforço para explicar onde Almada caberia. O argentino virou pretexto para reforçar uma narrativa antiga: o Fla como clube que compra demais, se acha demais, incomoda demais. Essa forma de abordar o Rubro-Negro é recorrente em parte da mídia paulista, que ocupa posição hegemônica no debate esportivo nacional e, muitas vezes, trata a maior torcida do país como audiência indispensável, mas não como público merecedor de análise honesta.
O torcedor do Flamengo não precisa de elogio automático. Também não precisa que todo comentarista ache boa cada contratação especulada. O que se cobra é padrão. Se Memphis no Corinthians merece contextualização financeira, Danilo no Palmeiras merece leitura técnica e Almada no Flamengo merece ser tratado como peça de elenco, não como símbolo de arrogância. O jornalismo esportivo perde quando troca exame de futebol por bordão, antipatia e moldura pronta. A audiência percebe quando a régua muda, mesmo que o comentarista tente vestir a diferença de opinião.
A discussão sobre Almada, no fundo, é menor que o problema revelado por ela. O Flamengo pode contratar ou não contratar o argentino. Pode acertar ou errar na avaliação. Pode formar um elenco equilibrado ou criar congestionamento em setores ofensivos. Tudo isso deve ser analisado com firmeza. Mas a imprensa precisa decidir se quer discutir futebol ou alimentar ressentimento. Quando a mesma bancada trata o Corinthians com cautela, o Palmeiras com admiração técnica e o Flamengo com ironia sobre ego, a crítica deixa de parecer análise e passa a soar como sintoma. E o sintoma, nesse caso, é a dificuldade de aceitar que o Rubro-Negro, com seus erros e acertos, ocupa hoje um patamar que incomoda muita gente antes mesmo de a bola rolar.
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