Em fala problemática sobre Vini Jr., Filipe esqueceu casos de racismo contra o Flamengo na Argentina
Antes da partida na Argentina contra o Lanús e novamente em entrevista coletiva após o jogo, o técnico Filipe Luís comentou o caso de racismo envolvendo Vinícius Júnior e adotou um tom que provocou forte reação entre torcedores. Ao afirmar que a situação seria “a palavra de um contra o outro” e classificar o episódio como delicado, o treinador evitou uma condenação direta e imediata. Dias antes, o próprio Flamengo havia publicado nota firme de apoio ao atacante revelado pelo clube, rechaçando qualquer forma de discriminação.
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A divergência entre discurso institucional e posicionamento individual tornou-se o centro do debate. Não se tratava apenas de opinião pessoal. Tratava-se do treinador de um clube cuja base social, segundo levantamento do Ipec divulgado em 2025, é majoritariamente composta por torcedores pretos e pardos. Em meio a um cenário sensível, a escolha das palavras pesou.
As duas falas e o contexto
A primeira declaração ocorreu em entrevista a um veículo argentino antes da partida. Filipe disse que, se algo foi dito, deveria haver punição, mas ponderou que era necessário cuidado porque seria “a palavra de um contra o outro”. Na coletiva, ao ser questionado sobre o tratamento recebido na Argentina, afirmou que sempre foi muito bem tratado e classificou o episódio como caso isolado.
A sequência gerou desconforto. Ao deslocar o foco para uma suposta dúvida probatória, o treinador deixou de fazer o gesto básico esperado em situações desse tipo: condenar o racismo de forma inequívoca, independentemente da apuração jurídica. Em casos semelhantes, atletas e técnicos costumam separar a esfera penal da dimensão moral. A investigação cabe às autoridades; o repúdio é imediato.
A memória recente esquecida
O argumento de que o Flamengo “sempre foi bem tratado” na Argentina colide com episódios recentes. Em 2025, durante partidas da Libertadores, houve registros de gestos racistas direcionados a torcedores rubro-negros na partida contra o Racing e também ao ônibus da delegação no confronto contra o Estudiantes. Imagens circularam nas redes sociais até de jogadores, como Danilo, e foram noticiadas por veículos esportivos.
Não se trata de generalização contra um país ou uma torcida específica. Tampouco se pode imputar a uma instituição inteira a responsabilidade por atos individuais. Mas ignorar que esses episódios existiram enfraquece a análise. O problema não nasce de um único evento. Ele se repete, com personagens diferentes.
A posição oficial do clube
Após o novo caso envolvendo Vinícius Júnior, o Flamengo publicou mensagem clara de solidariedade. O texto destacou que racismo não faz parte do jogo e não pode ser normalizado. A nota foi interpretada como alinhamento inequívoco ao jogador.
Internamente, o clube aprovou em 2025 medidas estatutárias voltadas ao combate à discriminação, reforçando compromisso público com pautas antirracistas. A postura institucional, portanto, já estava delimitada.
Quando o técnico adota linha distinta, cria-se ruído. A instituição fala uma coisa; o comandante do time sugere outra leitura. Ainda que não haja contradição formal, a diferença de ênfase é perceptível.
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Entre prudência e relativização
É legítimo que alguém evite julgamento categórico antes de investigação. O ponto central é a forma. Em episódios de preconceito racial, a prudência jurídica não impede o repúdio moral. Ao optar por um discurso que equilibra versões, Filipe transmitiu a sensação de distanciamento.
A repercussão foi imediata. Parte da torcida viu nas palavras do treinador uma tentativa de neutralidade excessiva. Outra parcela defendeu que ele apenas evitou se precipitar. O debate ganhou redes sociais, programas esportivos e portais de notícia.
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O peso simbólico
Vinícius Júnior tornou-se símbolo de resistência após sucessivos ataques na Europa. Cada manifestação pública sobre o tema ultrapassa o âmbito individual. Envolve identidade, pertencimento e memória coletiva.
O Flamengo, que formou o atacante, carrega responsabilidade simbólica nesse debate. Quando seu técnico fala, não fala apenas como ex-lateral ou treinador. Fala como representante de uma marca global, com milhões de torcedores.
Nada disso apaga a trajetória de Filipe como jogador ou sua relevância esportiva. Mas ídolos são cobrados também fora das quatro linhas. Em temas que atravessam a sociedade, o silêncio ou a relativização costumam ser interpretados como posicionamento.
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