Fim das Bets ameaçam R$ 1 bilhão do futebol: qual será o impacto no Flamengo?

A possibilidade de uma mudança radical na política brasileira para as apostas esportivas colocou clubes, patrocinadores e entidades do futebol diante de uma discussão que vai muito além da presença das marcas nas camisas. Caso uma Medida Provisória restrinja de forma ampla a atuação das bets, o impacto financeiro poderá aparecer imediatamente nos balanços das equipes, principalmente porque os contratos atuais movimentam cerca de R$ 1 bilhão por ano apenas entre os clubes da Série A. Ao mesmo tempo, o governo sustenta que o avanço das apostas trouxe problemas relacionados ao endividamento, à compulsão e à proteção dos consumidores. O debate, portanto, coloca de um lado uma fonte de receita que ganhou espaço rapidamente e, de outro, uma atividade que passou a ser alvo de questionamentos sociais e regulatórios.
Ouça nossas análises e entrevistas sobre a eleição do Flamengo no seu agregador de podcast preferido: Spotify, Deezer, Amazon, iTunes, Youtube Music, Castbox e Anchor.
O tamanho da conta
Os números ajudam a dimensionar o problema. Segundo levantamento do UOL com base nos balanços dos clubes, as empresas de apostas responderam por R$ 1,03 bilhão dos R$ 3,069 bilhões arrecadados em patrocínios pelos 20 integrantes da Série A em 2025. Isso significa que aproximadamente um terço da receita comercial proveniente de patrocínios teve origem nesse segmento. No mesmo período, a receita comercial dos clubes saltou de R$ 1,3 bilhão, em 2021, para mais de R$ 3 bilhões.
A dimensão também aparece na presença das marcas. O IBOPE Repucom registrou 18 empresas de apostas diferentes nos uniformes dos 20 clubes da Série A em 2025. O setor esteve presente em todas as equipes e liderou, pelo quarto ano consecutivo, a ocupação do espaço máster.
Para o Flamengo, a exposição é ainda maior em valores absolutos. O contrato firmado com a Betano em 2025 prevê R$ 268,5 milhões por temporada e validade até dezembro de 2028, podendo alcançar R$ 895 milhões no período total. O acordo foi aprovado pelo Conselho Deliberativo e passou a ocupar o principal espaço comercial do uniforme rubro-negro.
A eventual perda desse dinheiro não significaria apenas substituir uma marca por outra de maneira automática. Uma mudança repentina atingiria contratos em vigor, planejamento orçamentário, propriedades comerciais e, indiretamente, outras receitas ligadas ao ecossistema de publicidade esportiva. Há ainda o receio de efeitos sobre acordos envolvendo competições, transmissões e outras propriedades comerciais.
Uma ruptura diferente das anteriores
O futebol brasileiro já passou por momentos em que um setor deixou de ocupar espaço relevante nas camisas. A diferença está na velocidade com que isso aconteceu em cada período.
Em 1987, por exemplo, a própria organização do Campeonato Brasileiro atravessava dificuldades financeiras. A CBF informou que não tinha condições de bancar as despesas da competição, cenário que contribuiu para a criação do Clube dos 13 e para a organização da Copa União.
Na década de 1990, a estabilização proporcionada pelo Plano Real ampliou o mercado publicitário e diferentes segmentos passaram a disputar espaço no futebol. O cenário não dependia de uma única indústria. Marcas de alimentos, bancos, empresas automobilísticas, companhias aéreas e fabricantes de bebidas apareceram em diferentes clubes.
O movimento dos bancos se intensificou na década seguinte. Em 2011, o Banco BMG chegou a aparecer em 11 ou 12 dos 20 clubes da Série A, entre posições máster e secundárias. O Flamengo também teve a instituição como patrocinadora.
Pouco depois, a Caixa Econômica Federal tornou-se uma das principais forças do mercado. Em 2018, 25 clubes das Séries A e B tinham contratos com o banco estatal, que investiu R$ 127,8 milhões naquele ano. O Flamengo recebeu R$ 25 milhões, um dos maiores valores entre as equipes patrocinadas.
Quando a Caixa decidiu não renovar os contratos para 2019, os clubes precisaram procurar alternativas. A transição mostrou que substituir um patrocinador relevante não era necessariamente simples: dos 25 times apoiados pela estatal em 2018, apenas quatro haviam conseguido novos parceiros até janeiro do ano seguinte.
É justamente nesse ponto que a comparação com as bets precisa ser feita com cuidado. O futebol já sobreviveu à saída de grandes segmentos, mas uma substituição gradual é diferente de uma ruptura provocada por uma mudança regulatória capaz de atingir contratos ainda vigentes.
ENTREVISTA COMPLETA:
O caso do Flamengo
O Flamengo oferece um exemplo concreto dessa transformação. O clube deixou para trás diferentes modelos de patrocínio ao longo das últimas décadas e chegou a 2025 com aquele que foi anunciado como o maior contrato da história do futebol brasileiro até então.
O acordo com a Betano começou em agosto de 2025 e prevê R$ 268,5 milhões por temporada. O valor representa uma fonte relevante de recursos para o planejamento do clube, embora não seja correto tratar o patrocínio isoladamente como responsável por toda a evolução das receitas comerciais. De 2024 para 2025, por exemplo, a receita rubro-negra com patrocínio e publicidade passou de R$ 322 milhões para R$ 410 milhões, segundo dados publicados pelo UOL.
A própria negociação foi estruturada considerando possíveis mudanças regulatórias. O contrato prevê cenários distintos caso ocorram alterações na legislação ou na tributação do setor. Em setembro de 2026, segundo o colunista Rodrigo Mattos, a Betano havia sinalizado informalmente ao Flamengo a possibilidade de rompimento caso uma proibição inviabilizasse sua operação.
Isso transforma a discussão em algo mais concreto para os clubes. Não se trata apenas de saber se haverá espaço para uma nova empresa na camisa no futuro, mas de avaliar como substituir, em curto prazo, receitas que já foram incorporadas aos orçamentos.
O argumento social e a reação dos clubes
Do outro lado da discussão estão os efeitos associados às apostas. Pesquisa nacional Ipsos-Ipec divulgada em julho de 2026 mostrou que 68% dos entrevistados defendiam a proibição dos patrocínios de bets em clubes esportivos porque consideravam que as apostas prejudicam torcedores e famílias. O levantamento também apontou que 58% acreditavam que as bets aumentam muito o risco de manipulação de resultados.
Os clubes, por sua vez, reagiram à possibilidade de restrições. Em manifesto divulgado em setembro, dirigentes defenderam a manutenção da publicidade das empresas autorizadas e argumentaram que uma mudança ampla poderia comprometer a sustentabilidade financeira do futebol. Também defenderam o combate às plataformas ilegais e se colocaram à disposição para participar da construção de medidas de prevenção.
A reação não foi unânime fora do futebol. A coalizão Brasil Contra Bets, formada por 22 organizações, contestou a posição dos clubes e sustentou que os custos sociais das apostas também recaem sobre os torcedores e suas famílias.
Há, portanto, duas discussões diferentes acontecendo ao mesmo tempo. Uma trata dos efeitos sociais e da necessidade de controlar uma atividade que cresceu rapidamente. A outra diz respeito à maneira como uma eventual mudança será implementada sem produzir uma ruptura financeira nos clubes e em toda a cadeia comercial ligada ao esporte.
LEIA MAIS:
CASO PREFIRA OUVIR:
O que está em jogo
O ponto mais sensível para o futebol não é simplesmente perder um patrocinador. É perder, de uma hora para outra, um segmento que passou a ocupar posição central no mercado comercial.
A experiência da Caixa mostra que o futebol consegue encontrar novos parceiros, mas também revela que a substituição pode levar tempo e atingir de maneira desigual os clubes. A diferença, agora, está no tamanho da presença das bets e na existência de contratos de alto valor ainda em vigor.
Para o Flamengo, a questão é especialmente relevante por causa do tamanho do acordo com a Betano. Para os demais clubes, a preocupação pode ser proporcionalmente ainda maior dependendo da participação dessa receita no orçamento anual.
A história do futebol brasileiro mostra que patrocinadores entram, saem e são substituídos conforme a economia muda. O dinheiro já veio de bancos, estatais, alimentos, bebidas, empresas automobilísticas e tecnologia. As bets são apenas o capítulo mais recente dessa transformação. O que ainda precisa ser definido é se a próxima mudança ocorrerá gradualmente, como em outros momentos, ou se uma nova regra provocará uma ruptura imediata em contratos que sustentam uma parcela significativa das receitas atuais.
—
+ Siga o Ser Flamengo no Twitter, no Instagram e no Youtube.
Descubra mais sobre Ser Flamengo
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.


