Flamengo de Jorge Jesus virou referência e mudou a régua do futebol brasileiro

O Flamengo de Jorge Jesus foi além dos títulos conquistados em 2019. Para o pesquisador Paulo Tinoco, convidado do BraboCast por Tulio Rodrigues e Rafael Penido, a equipe que marcou a temporada daquele ano se tornou uma referência de jogo no futebol brasileiro e passou a ser utilizada até pelos rivais como parâmetro de comparação. A avaliação surgiu durante uma conversa sobre os grandes times da história rubro-negra e sobre quais personagens melhor representam o Flamengo contemporâneo.
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Tinoco, que pesquisa a história do clube, foi provocado a escolher quem colocaria na capa de um livro sobre o Flamengo moderno. Antes de chegar a Jorge Jesus, fez uma comparação entre diferentes gerações. Para ele, o time de 1982 é o mais espetacular do período que vai de 1978 a 1983, embora tenha ouvido de torcedores mais antigos que a equipe de 1953 poderia ser colocada no mesmo patamar. Na história mais recente, porém, a resposta foi direta: o Flamengo de 2019.
“Jorge Jesus trouxe um tipo de jogo que a gente estava muito tempo sem ver”, afirmou Tinoco ao explicar por que o treinador português sintetiza aquela geração. A avaliação não está relacionada apenas à quantidade de conquistas. O pesquisador fez questão de estabelecer uma diferença entre vencer e influenciar.
A régua passou a ser 2019
Para Tinoco, o aspecto mais relevante da passagem de Jorge Jesus pelo Flamengo foi o legado deixado dentro de campo. O time de 2019 passou a ser utilizado como referência para avaliar outras equipes, inclusive por torcedores que não apoiam o clube.
“Ele é tão influente que, mesmo as pessoas não querendo, os rivais colocam como régua”, afirmou. A partir dessa percepção, o Flamengo de 2019 deixou de ser apenas um campeão de seu tempo e passou a ocupar um espaço diferente na memória recente do futebol brasileiro.
A comparação com outras equipes ilustra essa mudança. Durante a conversa, foram citados o Santos de Neymar, o Corinthians de 2015 e o Cruzeiro de 2003. Para os participantes, colocar essas equipes lado a lado exige considerar mais do que taças e campanhas. O modo como cada time jogava e a influência produzida posteriormente também fazem parte da avaliação histórica.
Essa distinção ajuda a explicar por que Tinoco considera o Flamengo de Jorge Jesus o time mais influente dos últimos 30 anos. O argumento não é que tenha sido necessariamente o maior campeão do período, mas que sua maneira de jogar produziu uma referência que permaneceu depois daquela temporada.
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Um legado de comportamento
A influência, na avaliação do pesquisador, também alcançou a relação do torcedor com o futebol praticado pelo Flamengo. Jorge Jesus construiu uma equipe associada à busca constante pelo ataque, à pressão e à tentativa de controlar as ações da partida.
Tinoco relacionou essa característica à própria identidade rubro-negra. Para ele, a ideia de “vencer, vencer, vencer”, presente no hino do clube, encontrava correspondência na proposta do treinador português.
A interpretação vai além da frase motivacional. O pesquisador lembrou que Jesus demonstrava incômodo quando seus jogadores recuavam ou tocavam excessivamente para trás. Na leitura apresentada durante o programa, a exigência por avançar e atacar acabou ajudando a formar uma nova expectativa entre os torcedores.
Essa mudança pode ser percebida também na forma como parte da torcida passou a avaliar o desempenho da equipe. Tinoco argumentou que um Flamengo que abdicasse do protagonismo, mesmo vencendo, poderia encontrar resistência de um público acostumado àquela proposta dominante.
Da equipe de 2019 para os times seguintes
A discussão também alcançou o Flamengo de 2022, comandado por Dorival Júnior. Embora sejam equipes de características diferentes, o ponto levantado na conversa foi a capacidade de ambos os times controlarem partidas e assumirem o protagonismo.
O elemento comum seria a exigência de um Flamengo capaz de impor seu jogo. Não se trata necessariamente de reproduzir o modelo de Jorge Jesus, mas de manter uma identidade baseada em domínio, posse e iniciativa.
Essa herança ajuda a compreender por que a passagem do português permanece como referência mesmo anos depois de sua saída. O treinador não deixou apenas lembranças de uma temporada excepcional. De acordo com a análise de Tinoco, deixou uma expectativa sobre aquilo que o torcedor entende como o futebol que o Flamengo deveria praticar.
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Uma história que começa antes de Jesus
A conversa também mostrou que a influência de 2019 não pode ser analisada isoladamente. Ao lembrar outras gerações, Tinoco citou o time de 1982 como sua principal referência afetiva e técnica entre as equipes que acompanhou de perto.
O pesquisador contou que sua relação com o Flamengo começou em 1977, quando assistiu a um jogo no Maracanã. A lembrança daquele primeiro contato com o estádio permanece associada à chuva, ao gramado e ao som das transmissões de rádio. Décadas depois, ao pesquisar a história do clube, ele passou a revisitar períodos que não havia vivido diretamente.
Foi assim que outras equipes ganharam espaço em sua análise, como o Flamengo do tricampeonato dos anos 50 e o time de 1982. A comparação entre épocas diferentes, portanto, faz parte de um esforço para entender não apenas quais equipes venceram mais, mas quais deixaram marcas duradouras.
É nesse contexto que Jorge Jesus aparece como personagem central da história contemporânea. Para Paulo Tinoco, o Flamengo de 2019 conseguiu algo que ultrapassou a conquista de troféus: estabeleceu uma referência estética e competitiva que continuou sendo utilizada para medir outras equipes.
A discussão sobre legado, nesse caso, não termina na temporada de 2019. Ela permanece cada vez que um novo Flamengo entra em campo e é comparado àquele time. É justamente nessa permanência que está, para o pesquisador, a dimensão histórica de Jorge Jesus: não apenas ter vencido, mas ter ajudado a mudar a régua pela qual o próprio Flamengo passou a ser cobrado.
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