O Flamengo abriu nesta segunda-feira (17) a votação popular que definirá o vencedor do Manto da Nação, projeto que colocou torcedores de todo o Brasil no processo de criação de uma nova camisa rubro-negra. Depois de receber mais de 8 mil desenhos, o clube selecionou dez finalistas por meio de uma curadoria que levou em consideração criatividade, identidade e conexão histórica. Agora, a decisão passa para o público, que poderá escolher seu modelo preferido até 30 de agosto, no site oficial da iniciativa.
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A dimensão da participação ajuda a explicar o alcance do concurso. Os dez projetos selecionados representam sete estados: Maranhão, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Ceará, Espírito Santo e Minas Gerais, e apresentam interpretações bastante diferentes sobre aquilo que significa vestir o Flamengo. Entre as referências aparecem o urubu, as origens no remo, a cidade do Rio de Janeiro, a conquista da Libertadores em Lima, a arquitetura urbana, a Baía de Guanabara e elementos ligados à realeza.
O resultado também mostra como a identidade visual do clube ultrapassou há muito tempo a simples combinação entre vermelho e preto. As propostas trabalham dourado, off-white, grafismos, mapas, penas e referências históricas, mas procuram preservar símbolos facilmente reconhecidos pela torcida. Mais do que desenhar uma camisa, os participantes foram estimulados a contar uma história.
Urubu aparece como principal referência entre os finalistas
Nenhum elemento foi tão recorrente quanto o urubu, personagem incorporado pela torcida ao longo das décadas e transformado de provocação adversária em símbolo de orgulho rubro-negro. Pelo menos metade dos projetos utiliza diretamente a ave como ponto central ou como parte importante da narrativa.
Antonio Rodrigues, do Rio de Janeiro, criou o “É Urubu”, proposta baseada justamente nessa transformação histórica. A ideia trabalha o significado de um símbolo inicialmente utilizado de maneira pejorativa e posteriormente apropriado pela torcida até se tornar parte da identidade do Flamengo.
Bruno Gondim, do Rio Grande do Norte, apresentou o “Urubu Rei”, combinando off-white, preto e vermelho numa referência à força, proteção e domínio. Daniel Barbosa, de Fortaleza, segue caminho semelhante com o “Respeita o Rei”, no qual uma composição geométrica procura formar de maneira abstrata a silhueta da ave em pleno voo.
Marcos Junior, de Vitória, levou o conceito para outro território com o “Manto Real”. O desenho trata a camisa como uma veste de realeza e utiliza penas do urubu, traços que remetem à brasa e elementos dourados relacionados a 1895, ano de fundação do clube.
Já Vitor Ferrara, de Volta Redonda, propôs a “Pluma”, na qual as penas envolvem a camisa como uma segunda pele. A ideia pretende fazer com que o torcedor deixe de apenas carregar o símbolo para, visualmente, tornar-se parte dele.
A repetição não significa falta de diversidade. Pelo contrário: o mesmo personagem aparece reinterpretado sob conceitos de força, pertencimento, realeza, provocação histórica e transformação cultural.
Lima e Libertadores também entram na disputa
Dois modelos recorreram diretamente à relação do Flamengo com Lima, cidade que ocupa um espaço especial na memória recente do clube por ter recebido conquistas continentais.
Alison Douglas, de Teresina, criou a “Noite Eterna de Lima”, inspirada na atmosfera da decisão de 2019. A proposta utiliza preto como base, grafismos associados à Libertadores, dourado representando a glória e vermelho ligado à identidade rubro-negra e aos dois gols daquela final.
Marcelo Gluz, do Rio de Janeiro, apresentou o “Urubu de Lima” a partir de uma construção mais incomum. O projeto relaciona os geoglifos da civilização Nazca, localizados a centenas de quilômetros da capital peruana, a uma narrativa simbólica envolvendo um urubu andino e as conquistas rubro-negras na cidade.
Os dois trabalhos mostram como determinados resultados deixam de permanecer restritos ao campo e passam a integrar permanentemente a linguagem visual de um clube. Lima tornou-se, para parte da torcida, uma referência tão reconhecível quanto outros elementos históricos do Flamengo.
Rio, remo e origem também inspiram camisas
A cidade onde o clube nasceu aparece de maneiras diferentes entre os finalistas. Adam Costa, de Imperatriz, apresentou o “Prestígio Urbano”, construído a partir da relação entre Flamengo e Rio de Janeiro, transitando pelas ruas, pelo mar e pelos contrastes entre luxo e simplicidade. O dourado representa as glórias e o urubu reaparece como símbolo de força.
Stephany Dalzisa, de Betim, partiu da própria geografia. Em “Traços de uma Nação”, as curvas de nível do Rio de Janeiro viram linhas da camisa, transformando litoral, morros e relevo em elementos gráficos. A proposta também trabalha a expansão nacional do Flamengo ao mostrar o urubu atravessando fronteiras sem abandonar suas origens cariocas.
Luiz Gomes recupera uma dimensão ainda mais antiga. O “Uma Força da Natureza” homenageia o remo e a Baía de Guanabara, utilizando degradê do preto para o vermelho, grafismos relacionados ao movimento das águas e o CRF centralizado. A referência retorna ao nascimento do Clube de Regatas do Flamengo, em 1895, antes de o futebol se tornar a modalidade responsável pela projeção nacional da instituição.
Esses conceitos revelam uma característica interessante do concurso: embora os participantes estejam desenhando uma camisa contemporânea, boa parte deles procura legitimidade no passado. A inovação visual aparece acompanhada de referências capazes de estabelecer continuidade histórica.
Curadoria reduz mais de 8 mil projetos a dez
Antes de chegar à votação popular, o Flamengo recebeu mais de 8 mil desenhos, posteriormente avaliados por uma equipe de curadores. A seleção considerou não apenas a aparência das peças, mas também criatividade e capacidade de representar a identidade do clube.
Essa filtragem produziu um grupo bastante heterogêneo. Há modelos predominantemente escuros, utilização de dourado, propostas off-white, construções geométricas e camisas que transformam acontecimentos esportivos em elementos visuais.
Também chama atenção a distribuição geográfica. Embora quatro finalistas sejam do Rio de Janeiro, existem representantes do Nordeste, Sudeste e Maranhão, reforçando uma característica fundamental da torcida rubro-negra: sua presença nacional. O concurso termina reproduzindo na própria lista final uma dimensão que o Flamengo historicamente procura explorar como ativo institucional e comercial.
Torcedor deixa de ser apenas consumidor
O ponto mais relevante do Manto da Nação talvez não esteja exclusivamente no desenho vencedor. O projeto muda temporariamente a posição ocupada pelo torcedor na cadeia tradicional de produção de uma camisa.
Normalmente, fornecedora e clube desenvolvem o uniforme, realizam pesquisas, aprovam modelos e apresentam o produto pronto ao público. Desta vez, a lógica parte da criação dos próprios flamenguistas, passa por uma curadoria e retorna à torcida para a escolha final.
É também uma estratégia de engajamento. Os mais de 8 mil trabalhos inscritos representam milhares de pessoas dedicando tempo a pesquisar história, construir conceitos, desenhar grafismos e imaginar como gostariam de representar o Flamengo. Depois dessa primeira mobilização, a votação cria uma segunda etapa capaz de envolver um universo muito maior.
O vencedor precisará ainda carregar uma responsabilidade incomum: transformar uma ideia individual em produto representativo de milhões de pessoas. Entre urubus, mapas, águas, penas, Libertadores e referências à fundação do clube, os dez finalistas demonstram que não existe uma única maneira de interpretar visualmente o Flamengo.
Até 30 de agosto, caberá à própria torcida determinar qual dessas histórias será convertida em camisa. O Manto da Nação chega à etapa decisiva mantendo a lógica que orientou o concurso desde o início: o clube oferece a estrutura, os torcedores criam as possibilidades e a escolha final retorna para quem estará nas arquibancadas vestindo o resultado.
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Conheça os 10 finalistas
Adam Costa (Imperatriz/MA) — Prestígio Urbano: conecta Flamengo, Rio de Janeiro, ruas, mar, dourado e a figura do urubu.
Alison Douglas (Teresina/PI) — Noite Eterna de Lima: recupera a conquista da Libertadores de 2019 com preto, dourado, vermelho e referências à competição.
Antonio Rodrigues (Rio de Janeiro/RJ) — É Urubu: transforma a história de apropriação do urubu numa declaração de identidade.
Bruno Gondim (RN) — Urubu Rei: trabalha força, proteção e domínio combinados a off-white, vermelho e preto.
Daniel Barbosa (Fortaleza/CE) — Respeita o Rei: utiliza formas geométricas para construir de maneira abstrata um urubu em voo.
Luiz Gomes (Rio de Janeiro/RJ) — Uma Força da Natureza: homenageia remo, Baía de Guanabara e as origens do clube.
Marcelo Gluz (Rio de Janeiro/RJ) — Urubu de Lima: conecta os geoglifos de Nazca às conquistas continentais rubro-negras em Lima.
Marcos Junior (Vitória/ES) — Manto Real: utiliza realeza, penas do urubu e referências ao ano de 1895.
Stephany Dalzisa (Betim/MG) — Traços de uma Nação: transforma curvas de nível do Rio de Janeiro em grafismos e relaciona origem carioca à expansão nacional.
Vitor Ferrara (Volta Redonda/RJ) — Pluma: envolve o uniforme com penas para transformar simbolicamente o torcedor no próprio urubu.
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