O Flamengo aprovou um aditivo ao contrato com a Adidas que permite ao clube comprar diretamente da fornecedora e revender camisas por meio de sua própria loja virtual. A mudança foi aprovada pelo Conselho Deliberativo e cria um novo modelo de comercialização para o uniforme rubro-negro, no qual o clube deixa de receber apenas royalties pelas peças vendidas por terceiros e passa a assumir também a operação de compra, estoque e venda. O projeto começa com 20 mil camisas em caráter experimental e poderá chegar a 350 mil unidades no futuro.
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A alteração ocorre em um momento no qual o Flamengo busca ampliar suas fontes de receita e reduzir a dependência de determinadas propriedades comerciais. A operação também coincide com a retomada do e-commerce pelo próprio clube, que passou a concentrar a loja dentro do novo site oficial. Com isso, o Flamengo terá controle direto sobre uma etapa que antes ficava nas mãos de parceiros varejistas.
O que muda no contrato com a Adidas
O modelo atual é relativamente simples: a Adidas fabrica e comercializa os produtos, enquanto o Flamengo recebe royalties sobre as vendas. No novo formato, o clube poderá comprar um lote diretamente da fornecedora para revender ao torcedor em seu próprio canal digital.
A diferença está na margem. Ao atuar apenas como detentor dos direitos comerciais, o Flamengo participa da receita por meio dos royalties. Quando passa a comprar e revender a camisa, pode obter um ganho maior por unidade, mas também assume despesas e riscos que antes pertenciam ao varejista.
Os valores apresentados durante a discussão do acordo ajudam a dimensionar essa mudança. Uma camisa oficial citada como exemplo custa atualmente R$ 450 ao consumidor. No modelo tradicional, o lojista paga cerca de R$ 198 pela peça e trabalha com a diferença entre o preço de aquisição e o valor final de venda, enquanto o Flamengo recebe seus royalties. Na operação direta, o clube terá de desembolsar pela mercadoria e administrar a comercialização, mas poderá ficar com uma parcela maior do resultado.
A informação divulgada por Rodrigo Mattos é de que o primeiro ano funcionará como um teste com 20 mil camisas. Segundo a explicação apresentada ao Conselho Deliberativo, essa operação pode acrescentar aproximadamente R$ 1,2 milhão por ano à receita do Flamengo. Se o modelo apresentar resultado satisfatório, a intenção é ampliar gradualmente o volume até 350 mil unidades.
O risco passa a ser do Flamengo
A mudança não representa simplesmente uma nova forma de receber dinheiro. Existe uma alteração relevante na distribuição do risco da operação.
Ao comprar antecipadamente um determinado número de camisas, o clube passa a depender da velocidade das vendas. Se o produto tiver boa procura, a margem adicional pode aumentar a arrecadação. Caso contrário, o Flamengo fica com estoque e pode precisar recorrer a promoções para liberar peças.
Esse problema é particularmente relevante no mercado de uniformes esportivos. O lançamento de uma nova camisa pode reduzir a procura por modelos anteriores, obrigando o varejo a ajustar preços. Uma peça comprada por determinado valor pode perder parte do seu potencial comercial meses depois, principalmente quando uma nova coleção chega às lojas.
Por isso, o lote inicial de 20 mil unidades funciona como uma espécie de laboratório. O Flamengo poderá observar não apenas a demanda pelos produtos, mas também toda a estrutura necessária para uma operação própria, incluindo estoque, processamento dos pedidos, pagamento, separação e entrega.
Se a experiência funcionar, a ampliação para 350 mil camisas representará uma mudança de escala bastante significativa.
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O e-commerce voltou para o clube
O aditivo com a Adidas também precisa ser entendido dentro de outra movimentação recente. O Flamengo retomou a gestão do próprio e-commerce, que anteriormente era operado por uma empresa terceirizada.
A loja passou a integrar o novo site oficial do clube, que reúne em uma mesma plataforma serviços e conteúdos relacionados ao futebol, esportes olímpicos, notícias, sócio-torcedor e outros produtos. A mudança cria uma estrutura mais adequada para que o Flamengo controle diretamente a relação comercial com o consumidor.
Nesse cenário, a autorização para comprar camisas da Adidas e revendê-las diretamente deixa de ser uma iniciativa isolada. O clube passa a ter, ao menos em parte da operação, as duas pontas sob seu controle: o canal de venda e a mercadoria adquirida para comercialização.
A estratégia também abre espaço para que o Flamengo conheça melhor o comportamento de quem compra diretamente em seus canais digitais. Informações sobre demanda, tamanhos, modelos, regiões e períodos de maior procura podem ajudar no planejamento de novos pedidos e na gestão dos estoques.
De 20 mil para 350 mil camisas
O salto previsto chama atenção pela diferença entre o projeto inicial e a possibilidade de expansão. O primeiro lote terá 20 mil unidades. A meta futura mencionada é de 350 mil.
A conta apresentada nas discussões do acordo indica que os aproximadamente R$ 1,2 milhão adicionais projetados para a fase inicial podem crescer consideravelmente com a ampliação da operação. Não se trata, porém, de uma projeção que possa ser tratada como receita garantida. O resultado dependerá do desempenho das vendas, do custo de aquisição das peças, das despesas logísticas, de eventuais descontos e da capacidade do clube de administrar o estoque.
A comparação com o varejo tradicional mostra justamente o tamanho do desafio. O Flamengo possui uma rede ampla de lojas licenciadas e parceiras espalhadas pelo país, que já assumem parte importante desse risco. Ao ingressar diretamente nesse mercado, o clube terá de desenvolver uma operação capaz de lidar com volumes maiores sem comprometer a margem.
A experiência inicial, portanto, será fundamental para determinar se a expansão faz sentido financeiramente.
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Uma nova frente de receita
O movimento acontece em um contexto de busca por novas receitas. Durante a reunião, o presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap, voltou a defender a necessidade de ampliar as fontes de arrecadação do clube diante das mudanças no mercado de patrocínios e das perdas relacionadas às apostas esportivas.
O dirigente tem estimado em cerca de R$ 400 milhões o impacto financeiro para o Flamengo decorrente das mudanças envolvendo as bets. Independentemente da dimensão exata dessa perda, a estratégia adotada pela administração passa por diversificar as receitas e explorar ativos que já fazem parte do patrimônio comercial do clube.
O contrato com a Adidas é um desses ativos. A força da marca Flamengo no mercado de camisas transforma a venda direta em uma possibilidade relevante, mas que precisa ser acompanhada com cautela justamente porque o clube passa a carregar custos e riscos que anteriormente estavam distribuídos entre fabricante e varejistas.
O primeiro passo será pequeno diante da escala pretendida. As 20 mil camisas servirão para testar o funcionamento do novo modelo e medir a resposta do torcedor. A partir desses resultados, o Flamengo poderá decidir se avança para uma operação muito maior.
Se chegar às 350 mil unidades previstas, a mudança deixará de ser apenas um complemento aos royalties e poderá se transformar em uma nova frente comercial do clube. O ponto central, neste momento, é que o aditivo com a Adidas não altera apenas a forma de vender a camisa. Ele coloca o Flamengo em uma posição diferente dentro da cadeia de comercialização, com possibilidade de maior margem, mas também com responsabilidade direta sobre aquilo que acontece depois da compra do produto.
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