Flamengo prova que associação pode valer mais que SAF quando há escala, caixa e gestão sustentável

Durante anos, uma ideia passou a circular com força no futebol brasileiro: a de que a SAF representaria uma espécie de solução automática para problemas financeiros, crescimento institucional e valorização de mercado. A chegada de investidores estrangeiros, a transformação de clubes tradicionais em sociedades anônimas e o aumento do debate sobre governança corporativa ajudaram a consolidar essa percepção. Entretanto, os dados apresentados pelo Relatório Convocados 2026 colocam uma camada importante de complexidade nessa discussão. Ao estimar os valuations dos principais clubes do país, o estudo aponta que os maiores valores continuam concentrados justamente em duas associações civis: Flamengo e Palmeiras.
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O levantamento, produzido pela Convocados em parceria com a OutField e com patrocínio da Galapagos Capital, mostra que Flamengo e Palmeiras permanecem ocupando a elite econômica do futebol brasileiro. Ambos aparecem como os únicos clubes avaliados acima da marca de R$ 2 bilhões dentro da metodologia utilizada pelo relatório. O dado ganha ainda mais relevância porque surge em um momento no qual boa parte do mercado passou a associar crescimento patrimonial quase exclusivamente à adoção do modelo SAF.
Mais do que um ranking financeiro, o estudo oferece elementos para uma reflexão mais ampla sobre gestão, sustentabilidade e geração de valor no futebol brasileiro.
O valuation não acompanha automaticamente o modelo societário
Um dos aspectos mais interessantes do relatório está justamente na forma como os valores são calculados. O valuation não considera apenas o formato jurídico da instituição. Entram na conta receitas recorrentes, capacidade de geração de caixa, patrimônio, força comercial, venda de atletas, ocupação de estádios, potencial de monetização, endividamento, custos operacionais e sustentabilidade financeira.
Quando esses fatores são colocados lado a lado, Flamengo e Palmeiras continuam aparecendo na liderança do mercado nacional.
O relatório reconhece que ambos possuem dívidas relevantes. Entretanto, faz uma distinção importante. Segundo a análise, o endividamento dessas instituições é sustentado por uma capacidade muito superior de geração de receitas, produção de caixa e monetização de ativos. Em outras palavras, a dívida não é analisada de forma isolada, mas dentro de uma estrutura econômica capaz de absorver compromissos financeiros sem comprometer a sustentabilidade operacional.
Essa diferença é central para entender o cenário atual do futebol brasileiro.
Durante muito tempo, o debate financeiro dos clubes esteve concentrado exclusivamente no tamanho das dívidas. Hoje, investidores e consultorias observam principalmente a relação entre passivo, receita recorrente, EBITDA, ativos e potencial de crescimento.

Flamengo se transforma em caso de mercado
O caso do Flamengo talvez seja o mais emblemático.
Nos últimos anos, o clube consolidou receitas bilionárias, ampliou receitas comerciais, fortaleceu sua marca, aumentou contratos de patrocínio, expandiu operações digitais e criou uma estrutura financeira que passou a ser observada por bancos, fundos de investimento e empresas do mercado financeiro.
O dado chama atenção porque o Flamengo atingiu esse patamar sem recorrer à transformação em SAF. Enquanto diversos clubes buscaram investidores como forma de resolver problemas estruturais acumulados ao longo de décadas, o clube percorreu um caminho diferente. Apostou em reorganização administrativa, profissionalização gradual, controle orçamentário, crescimento comercial e fortalecimento da própria marca.
O resultado aparece não apenas nos balanços anuais, mas também nas avaliações produzidas pelo mercado.
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Palmeiras reforça a mesma tese
O Palmeiras surge como outro exemplo importante dentro dessa discussão.
Assim como o Flamengo, o clube paulista permanece sob modelo associativo e figura entre os maiores valuations do país. O relatório destaca a força de receitas recorrentes, a capacidade de investimento esportivo e a consolidação de um ecossistema financeiro sustentável construído ao longo dos últimos anos.
A presença simultânea de Flamengo e Palmeiras no topo da cadeia econômica do futebol brasileiro cria um contraponto interessante em relação à narrativa segundo a qual apenas a transformação societária seria capaz de gerar valorização patrimonial relevante. Os dados sugerem algo diferente: o formato institucional pode ajudar, mas não substitui escala, gestão eficiente, controle financeiro e capacidade de monetização.
SAF não cria valor sozinha
Talvez a principal conclusão extraída das páginas dedicadas ao valuation seja justamente essa.
O relatório não afirma que SAFs fracassaram. Tampouco sugere que o modelo associativo seja superior em qualquer circunstância. O que os números indicam é que o formato jurídico, isoladamente, não produz riqueza.
Uma SAF mal administrada continua acumulando problemas. Uma associação bem gerida continua gerando valor. Essa diferença parece simples, mas altera completamente a forma como o debate costuma ser conduzido.
Nos últimos anos, parte do discurso público tratou a SAF como solução universal para os desafios do futebol brasileiro. Entretanto, os dados apresentados pelo Convocados mostram que o mercado continua premiando elementos mais profundos: capacidade de receita, força de marca, geração de caixa, governança e sustentabilidade financeira.
O debate que o futebol brasileiro precisará enfrentar
A discussão ganha ainda mais relevância porque o futebol nacional vive um momento de transformação estrutural.
O número de SAFs cresce ano após ano. Investidores estrangeiros ampliam participação no mercado. Fundos observam clubes brasileiros como ativos de investimento. Ao mesmo tempo, Flamengo e Palmeiras continuam figurando entre os maiores patrimônios esportivos do continente sem abrir mão do modelo associativo.
Isso não significa que todos os clubes possam reproduzir o mesmo caminho. Cada instituição possui contexto, dívida, patrimônio, torcida e capacidade comercial diferentes. Porém, o relatório desmonta uma simplificação que se tornou frequente no debate público: a de que basta transformar um clube em SAF para que seu valor dispare automaticamente.
Os números apresentados sugerem exatamente o contrário. O que gera valor continua sendo aquilo que sempre sustentou organizações saudáveis: gestão responsável, crescimento consistente, capacidade de gerar receitas e visão de longo prazo.
Ao observar Flamengo e Palmeiras liderando os valuations nacionais mesmo fora do modelo societário empresarial, o mercado envia um recado importante ao futebol brasileiro. O investidor pode acelerar processos. O formato jurídico pode facilitar estruturas de governança. Mas nenhum desses elementos substitui uma gestão capaz de construir receitas recorrentes, proteger ativos e transformar popularidade em resultado econômico sustentável.
No fim das contas, o relatório talvez não esteja apenas avaliando clubes. Está medindo quais instituições conseguiram transformar paixão em valor duradouro. E, neste momento, Flamengo e Palmeiras seguem aparecendo como os principais exemplos dessa capacidade dentro do futebol brasileiro.
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