Escritor resgata a história de Júlio Silva, criador da frase “Uma vez Flamengo, sempre Flamengo” e fundador do Bloco do Eu Sozinho

Poucas frases conseguem sintetizar a identidade de um clube centenário. No Flamengo, nenhuma expressão alcançou tanta força simbólica quanto “Uma vez Flamengo, sempre Flamengo”. Repetida por gerações de torcedores, estampada em documentos oficiais, cantada em arquibancadas e eternizada na abertura do hino popular de Lamartine Babo, a frase atravessou quase um século incorporada à cultura rubro-negra. O que poucos conhecem é a história de seu criador. Durante entrevista à Brabo TV, o pesquisador Paulo Tinoco, autor do livro Flamengo, o Fenômeno Nacional, revelou detalhes da trajetória de Júlio Silva, personagem fundamental para a construção da identidade flamenga e que, apesar de sua importância, permanece pouco lembrado pela maioria dos torcedores.
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A conversa, conduzida por Rafael Penido, Tulio Rodrigues e Cristiano Oliveira, trouxe à tona documentos históricos, relatos de época e episódios que ajudam a compreender como uma simples frase se transformou em um dos maiores símbolos do Flamengo. Mais do que um slogan, a expressão criada por Júlio Silva tornou-se uma declaração de pertencimento que atravessa gerações e ajuda a explicar a relação emocional entre o clube e sua torcida.
O vizinho do Flamengo que ajudou a construir sua identidade
Segundo Paulo Tinoco, Júlio Silva mantinha uma ligação profunda com o Flamengo desde a juventude. Morando próximo às instalações do clube, ele acompanhava o cotidiano dos atletas e registrou posteriormente algumas dessas lembranças em documentos históricos pesquisados pelo autor.
Uma das passagens mais curiosas envolve os remadores rubro-negros dos primeiros anos do século XX. De acordo com o relato encontrado por Tinoco, Júlio observava os treinos noturnos e via os atletas saírem da água cantando uma adaptação da famosa composição de Chiquinha Gonzaga: “Ô abre alas que eu quero passar, sou do Flamengo, não posso negar”. A cena ajuda a ilustrar como o sentimento de pertencimento já fazia parte da cultura rubro-negra muito antes da popularização do futebol no clube.
A trajetória de Júlio Silva, entretanto, não se limitou às proximidades da sede rubro-negra. Em determinado momento, mudou-se para Vila Isabel e participou da fundação do Vila Isabel Futebol Clube. A experiência o aproximou ainda mais da organização esportiva e social do Rio de Janeiro da época, permitindo que desenvolvesse iniciativas que mais tarde deixariam marcas permanentes no Flamengo.
O criador do Bloco do Eu Sozinho
Antes mesmo de eternizar a frase mais famosa da história rubro-negra, Júlio Silva já havia contribuído para outro capítulo importante da cultura flamenga. Em 1919, fundou o Bloco do Eu Sozinho, manifestação carnavalesca considerada uma das primeiras expressões organizadas do carnaval carioca.
A criação do bloco ocorreu em um período no qual o Flamengo ampliava sua presença para além das competições esportivas. O clube começava a se consolidar como fenômeno social, aproximando-se da música popular, das festas de rua e das manifestações culturais que caracterizavam a cidade do Rio de Janeiro.
Décadas depois, essa conexão entre Flamengo e carnaval continuaria sendo uma das marcas da instituição. Não por acaso, diversos artistas, compositores e personalidades do samba acabariam desenvolvendo vínculos com o clube, fortalecendo uma identidade popular que permanece viva até os dias atuais.
ENTREVISTA COMPLETA:
O nascimento de uma frase eterna
Após retornar ao Flamengo no início da década de 1920, Júlio Silva passou a atuar diretamente em diferentes modalidades esportivas do clube. Trabalhou na formação de atletas do futebol, do remo e também do basquete, tornando-se figura ativa no cotidiano rubro-negro.
Foi nesse contexto que surgiu a frase que atravessaria gerações.
Segundo a pesquisa apresentada por Paulo Tinoco, em outubro de 1929, durante um evento envolvendo jovens atletas das categorias de base, Júlio Silva criou a expressão “Uma vez Flamengo”. O lema era utilizado como uma espécie de juramento coletivo entre os participantes da atividade. Fotografias históricas registradas na época mostram o grupo reunido ao lado do dirigente, consolidando um dos momentos fundadores da cultura simbólica rubro-negra.
Poucos meses depois, no carnaval de 1930, a frase ganharia uma ampliação decisiva. Como era profundamente ligado ao universo carnavalesco, Júlio decorou o rink da Rua Paissandu com a inscrição completa: “Uma vez Flamengo, sempre Flamengo”. A partir daquele momento, a expressão começou a circular de forma mais ampla entre torcedores e associados, transformando-se gradualmente em uma marca identitária do clube.
Do carnaval ao estatuto do clube
O crescimento da popularidade da frase foi tão significativo que o Flamengo decidiu incorporá-la oficialmente à sua estrutura institucional. Em 1935, a expressão passou a constar nos documentos oficiais do clube, tornando-se uma fórmula obrigatória nos textos produzidos pela administração rubro-negra.
A medida demonstra que a diretoria da época compreendeu rapidamente a força daquele lema. Não se tratava apenas de uma frase de efeito. A mensagem sintetizava um conceito de fidelidade permanente, algo que ajudava a traduzir a relação emocional construída entre o Flamengo e seus torcedores.
Ao longo das décadas, a expressão resistiu às mudanças de dirigentes, gerações e contextos históricos. Sobreviveu ao surgimento do rádio esportivo, à era do Maracanã, às conquistas internacionais e à transformação do futebol em espetáculo globalizado.
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A ligação com o hino de Lamartine Babo
A consagração definitiva viria alguns anos depois, quando Lamartine Babo compôs o hino popular do Flamengo. Ao abrir a canção com os versos “Uma vez Flamengo, sempre Flamengo”, o compositor transformou a frase criada por Júlio Silva em patrimônio afetivo de milhões de rubro-negros.
A partir daí, a expressão ultrapassou as fronteiras administrativas do clube e passou a integrar o imaginário coletivo nacional. Cantada em estádios, rádios, transmissões esportivas e celebrações populares, tornou-se uma das frases mais conhecidas do futebol brasileiro.
Durante a entrevista, Paulo Tinoco destacou que Júlio Silva deveria ocupar posição muito mais destacada na memória institucional do Flamengo. Afinal, poucos personagens conseguiram produzir uma contribuição tão duradoura para a construção da identidade rubro-negra. Enquanto títulos podem ser superados e recordes eventualmente quebrados, símbolos culturais atravessam gerações.
Ao recuperar essa trajetória, a pesquisa apresentada em Flamengo, o Fenômeno Nacional não apenas resgata a figura de Júlio Silva, mas também ajuda a compreender como a história do Flamengo foi construída por personagens que atuaram além dos gramados. São dirigentes, remadores, compositores, torcedores e idealizadores que contribuíram para transformar o clube em algo maior do que uma instituição esportiva.
Quando milhões de rubro-negros repetem “Uma vez Flamengo, sempre Flamengo”, poucos conhecem a origem da frase. Mas a permanência desse lema ao longo de quase cem anos talvez seja a maior prova da relevância de seu criador. Júlio Silva pode não ter marcado gols decisivos nem levantado troféus diante de multidões, mas deixou uma marca que se tornou eterna na cultura flamenga.
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