A reunião de prestação de contas do primeiro semestre realizada na sede da Gávea revelou um dos setores menos visíveis da estrutura rubro-negra, mas que tem ganhado importância crescente dentro do futebol profissional. Em apresentação aos associados, o presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap, e o gerente de análise de dados do futebol, Téo Benjamin, detalharam como o Flamengo utiliza ciência de dados, inteligência artificial, monitoramento físico e planejamento estatístico para orientar decisões que vão desde escalações e substituições até contratações e projeções de desempenho para temporadas futuras. O encontro serviu para mostrar que a busca por resultados dentro de campo não está mais restrita à observação técnica ou à experiência dos profissionais do futebol, mas passa cada vez mais por modelos matemáticos, cruzamento de informações e análises.
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Segundo os dirigentes, o objetivo é construir uma cultura permanente de tomada de decisão baseada em evidências, capaz de sobreviver a mudanças de presidentes, treinadores ou executivos. A proposta é transformar informação em vantagem competitiva, criando processos que permitam ao clube enxergar tendências antes dos adversários e reduzir o peso da improvisação em um ambiente historicamente marcado pela urgência dos resultados.
A fala de Téo Benjamin apresentou uma visão ampla de como funciona a estrutura de inteligência rubro-negra, enquanto Bap revelou que acompanha pessoalmente os relatórios produzidos pela equipe e utiliza os dados nas reuniões frequentes com José Boto e Leonardo Jardim.
O planejamento que acompanha toda a temporada
Um dos pontos mais chamativos da apresentação foi o painel interno utilizado pelo departamento de futebol para monitorar a temporada completa. Bap chamou a ferramenta de seu “xodó” e explicou que ela reúne todos os jogos do ano, projeções de desempenho, metas de pontuação e cenários competitivos.
“Aqui tem todos os jogos do ano, o que a gente espera de cada jogo e quantos pontos a gente tem que fazer em cada jogo para que a gente chegue no final ganhando tudo”, afirmou.
Segundo o presidente, os relatórios são atualizados duas vezes por semana e servem como base para reuniões constantes com o diretor técnico José Boto e o treinador Leonardo Jardim. O foco não está em opiniões pessoais, mas nos indicadores produzidos pelo departamento de inteligência.
O dirigente revelou que, ao final do primeiro semestre, o Flamengo estava dois pontos abaixo da meta projetada para conquistar o Campeonato Brasileiro. Na avaliação interna, o empate contra o Vasco teve peso relevante nesse cálculo, já que a pontuação projetada considerava um rendimento ligeiramente superior ao obtido até a pausa do calendário.
A metodologia utiliza estudos históricos dos últimos dez Campeonatos Brasileiros para determinar quantos pontos normalmente são necessários para levantar a taça. A partir daí, os adversários são divididos em grupos de força e cada confronto recebe uma meta específica de desempenho.
Pensar além do próximo jogo
Durante a apresentação, Téo Benjamin destacou uma diferença importante entre a lógica do treinador e a lógica institucional do clube. Enquanto técnicos e jogadores precisam concentrar suas energias na próxima partida, o Flamengo trabalha com horizontes muito mais amplos.
“O Flamengo como instituição não pode pensar só no próximo jogo. A gente tem que pensar na temporada como um todo”, explicou.
A análise envolve não apenas o calendário atual, mas também projeções para futuras janelas de transferências e ciclos esportivos. O gerente revelou que o clube já trabalha com cenários que alcançam até cinco janelas de mercado à frente. O objetivo é prever necessidades futuras do elenco considerando idade dos atletas, desgaste físico, curva de desempenho e potenciais reposições.
Segundo ele, essa antecipação permite que decisões estratégicas sejam tomadas com antecedência, reduzindo riscos e evitando movimentos precipitados.
A integração de milhares de dados
Uma das explicações mais detalhadas da apresentação abordou a integração de informações produzidas por diferentes departamentos do clube. Hoje o Flamengo monitora indicadores relacionados a treinos, partidas, deslocamentos, sono, alimentação, suplementação, fisioterapia e recuperação física.
O desafio, segundo Téo, não está apenas em coletar os dados, mas em conectar todas essas informações. O profissional explicou que muitas vezes os registros existem, mas permanecem isolados em diferentes áreas. A proposta é reunir tudo em uma única plataforma capaz de identificar padrões invisíveis à observação humana.
Como exemplo, citou situações em que viagens afetam a qualidade do sono de um atleta, provocando dores musculares, queda de rendimento nos treinamentos e redução da performance nos jogos. Ao detectar essas relações, o clube consegue desenvolver programas individualizados de recuperação e treinamento..
A gestão física dos atletas
Outro aspecto apresentado foi o acompanhamento individualizado da carga física dos jogadores. Os gráficos exibidos aos associados mostram níveis de desgaste acumulado durante toda a temporada e permitem projetar o impacto de futuras sequências de jogos.
Segundo Bap, muitas críticas feitas por torcedores a determinadas substituições acontecem porque o público enxerga apenas os 90 minutos da partida, enquanto a comissão técnica trabalha com um horizonte muito mais amplo.
“A gente quer escolher os melhores 4.000 minutos do atleta durante o ano”, afirmou.
A ideia é preservar os principais jogadores para os momentos decisivos da temporada. O presidente revelou que modelos estatísticos conseguem apontar situações em que um atleta apresenta risco elevado de lesão após determinada sequência de partidas. Essas informações influenciam diretamente decisões de escalação, rodízio e minutagem.
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Arrascaeta como exemplo de sucesso
Para ilustrar os resultados práticos do trabalho desenvolvido pelo departamento de inteligência, Téo Benjamin destacou o caso de Arrascaeta. Segundo ele, a temporada passada representou um marco na gestão física do uruguaio. O meia disputou mais partidas, acumulou mais minutos em campo e apresentou desempenho superior ao esperado.
“O maior investimento que o Flamengo pode fazer é ter o Arrascaeta saudável e bem nos jogos mais importantes”, afirmou.
Na visão do dirigente, manter um jogador já consolidado em alto nível competitivo gera retorno maior e risco menor do que buscar no mercado um substituto de características semelhantes. A declaração reforça uma mudança de mentalidade que tem ganhado espaço nos grandes clubes do futebol mundial: preservar ativos valiosos pode ser tão importante quanto contratar novos talentos.
Performance não é a mesma coisa que resultado
Outro conceito enfatizado durante a apresentação foi a necessidade de separar desempenho de placar. Téo explicou que os resultados continuam sendo o principal indicador do futebol profissional, mas não podem ser analisados isoladamente. Segundo ele, sequências positivas ou negativas nem sempre refletem a realidade da performance de uma equipe.
Por isso, o Flamengo monitora indicadores capazes de identificar tendências antes que elas apareçam na tabela de classificação. O objetivo é entender se uma vitória foi construída sobre fundamentos sólidos ou se aconteceu por circunstâncias pontuais. Da mesma forma, derrotas podem esconder desempenhos consistentes que merecem continuidade. A análise busca evitar decisões emocionais e reduzir a influência do curto prazo.
O legado que o Flamengo tenta construir
Talvez a mensagem mais importante da apresentação tenha sido a preocupação com a continuidade. Ao longo de sua fala, Téo Benjamin repetiu diversas vezes que o sistema precisa existir independentemente das pessoas que hoje ocupam cargos de liderança. Segundo ele, a meta não é apenas utilizar tecnologia, mas criar uma cultura organizacional baseada em método, evidências e aprendizado contínuo.
“O Flamengo quer gerar inteligência para o longo prazo e construir uma vantagem competitiva duradoura”, resumiu.
A estratégia mostra um clube cada vez mais disposto a transformar informação em patrimônio institucional. Em um cenário onde diferenças técnicas entre grandes equipes se tornam menores a cada temporada, a capacidade de interpretar dados, antecipar tendências e tomar decisões mais precisas pode representar uma vantagem tão valiosa quanto uma contratação milionária.
ENTREVISTA: TÉO BENJAMIN – UMA ANÁLISE TÁTICA PROFUNDA DO FLAMENGO DE JORGE JESUS
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