FlamengoTV estreia quadro sobre a história do Flamengo com Ary Barroso; confira

A FlamengoTV estreia nesta quinta-feira, 27 de agosto, o programa “Corre O Tempo No Olhar”, nova atração dedicada à memória e à história do Flamengo. O primeiro episódio recupera a trajetória de Ary Barroso, compositor, radialista, cronista e um dos personagens mais apaixonados pelo clube ao longo do século XX. Com apresentação de Reikrauss e participação da gerente do Patrimônio Histórico do Flamengo, Desirée Reis, o programa resgata histórias que ajudam a explicar como o Rubro-Negro deixou de ser apenas uma agremiação esportiva para se transformar em uma identidade cultural que atravessa gerações.
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A estreia faz parte de uma nova fase da FlamengoTV, que ampliou sua programação com dois formatos de propostas diferentes. Enquanto “Em Nome do Jogo” discute negócios, gestão e os rumos da indústria do futebol, “Corre O Tempo No Olhar” olha para trás para recuperar personagens, símbolos e episódios dos 131 anos do clube. A ideia é transformar o acervo histórico em conteúdo audiovisual e aproximar o torcedor de histórias que, muitas vezes, sobrevivem apenas em livros, documentos e na memória de quem as testemunhou.
Os três primeiros episódios da atração foram planejados em torno de Ary Barroso, do Manto Sagrado e de Lima. A escolha do compositor para abrir a série não é casual. Poucos personagens conseguiram estabelecer uma relação tão intensa entre Flamengo, cultura popular e comunicação no Brasil.
Ary Barroso e o Flamengo
Mineiro de Ubá, Ary Barroso tornou-se um dos grandes nomes da música brasileira, com uma obra que ultrapassou fronteiras. “Aquarela do Brasil”, sua composição mais conhecida, ganhou dimensão internacional e foi escolhida em 1997 pela Academia Brasileira de Letras como a música do século.
Antes de a televisão ocupar o espaço que conquistaria nas décadas seguintes, entretanto, era pelo rádio que milhões de brasileiros acompanhavam o futebol. E foi nesse ambiente que Ary construiu uma das marcas mais particulares da história da narração esportiva.
Ary não escondia sua paixão pelo Flamengo. Ao contrário. Sua relação com o clube fazia parte da própria maneira como transmitia as partidas. Ele não procurava construir uma neutralidade artificial. Era um torcedor narrando futebol, com o entusiasmo de quem estava emocionalmente envolvido com aquilo que acontecia diante de seus olhos.
Quando o Flamengo atacava, a transmissão ganhava outra temperatura. Quando o adversário chegava perto do gol, Ary podia simplesmente anunciar que não queria nem olhar. A parcialidade, que poderia ser considerada um problema para os padrões atuais da comunicação esportiva, tornou-se justamente uma das características que o aproximaram da torcida.
Naquele período, a transmissão radiofônica tinha uma função que hoje parece difícil dimensionar. Sem televisão em todas as casas e muito antes da internet, a voz do narrador era a maneira encontrada por grande parte do país para acompanhar uma partida. Famílias se reuniam diante do rádio para ouvir os jogos, imaginar as jogadas e participar à distância de uma experiência que acontecia dentro do estádio.
Ary Barroso ajudou a transformar essa experiência em espetáculo. E sua paixão pelo Flamengo alcançou pessoas que nem sequer eram rubro-negras. O historiador Renato Coutinho lembra, no programa, que Ziraldo teria se tornado flamenguista influenciado pelas narrações de Ary.
A história ajuda a compreender uma transformação maior. O Flamengo já possuía uma vocação popular, mas o rádio ampliou brutalmente sua capacidade de chegar a diferentes regiões do país. A voz de Ary atravessava paredes, cidades e distâncias. O clube deixava de ser apenas uma instituição localizada no Rio de Janeiro para ocupar um espaço cada vez maior no imaginário nacional.
A gaitinha que virou símbolo
Uma das histórias recuperadas no episódio envolve a famosa gaitinha de Ary Barroso.
Na época, as condições de transmissão eram muito diferentes das atuais. Não havia cabines isoladas nos estádios e as narrações podiam ser feitas praticamente à beira do gramado. Com o barulho da torcida, a voz do narrador muitas vezes desaparecia no momento do gol.
Ary encontrou uma solução simples e genial: a gaitinha.
O instrumento passou a funcionar como uma espécie de assinatura sonora. Quando o gol acontecia, a gaitinha entrava em cena. E havia uma diferença perceptível quando o Flamengo marcava. O entusiasmo era maior, o som aparecia com mais intensidade e a reação do narrador deixava evidente para quem estivesse ouvindo que o Rubro-Negro estava em vantagem.
A paixão chegou a interferir diretamente nas transmissões. Em 1944, durante a campanha que levou o Flamengo ao primeiro tricampeonato carioca de sua história, Ary teria ficado tão nervoso durante uma partida que abandonou a transmissão antes do fim.
É uma daquelas histórias que dizem muito mais do que uma estatística. Revelam a dimensão emocional que o Flamengo já ocupava na vida de seus torcedores e também mostram como Ary Barroso ajudou a criar uma linguagem própria para representar esse sentimento.
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Flamengo, cultura e identidade nacional
A relação entre Ary e o Flamengo não se limitava ao rádio. O compositor também participou da vida política do clube e frequentava espaços onde decisões importantes da instituição eram discutidas.
A Confeitaria Colombo, cenário de parte do episódio, aparece justamente como um desses lugares. Durante décadas, o estabelecimento foi ponto de encontro de personalidades da vida cultural e política do Rio de Janeiro. No ambiente rubro-negro, também serviu como espaço de articulações envolvendo dirigentes e grupos que participavam dos rumos do clube.
O contexto histórico é fundamental para entender a dimensão dessa relação. Na década de 1930, o Flamengo passou por um processo de nacionalização de sua imagem, aproximando sua identidade de símbolos associados ao Brasil. A estratégia encontrou eco em personagens da imprensa e da cultura popular. Ary Barroso estava no centro desse movimento.
Sua atuação coincidiu com uma transformação da indústria cultural brasileira. O rádio se consolidava, o cinema ganhava força e Hollywood ampliava sua influência. Em meio à Segunda Guerra Mundial, a cultura também se tornou instrumento de aproximação entre países.
Foi nesse cenário que Walt Disney esteve no Brasil e produziu “Alô, Amigos”, filme de 1942 que apresentou personagens e elementos da América Latina ao público internacional. O longa introduziu o Zé Carioca e teve participação de músicas de Ary Barroso em sua trilha sonora.
A dimensão internacional de sua carreira ajuda a explicar uma das histórias mais curiosas recuperadas pelo programa. Em determinado momento, Ary recebeu uma proposta para trabalhar nos Estados Unidos. Seria uma oportunidade profissional e financeira extraordinária. A resposta, porém, teria sido negativa.
O motivo virou uma das histórias mais conhecidas sobre sua paixão pelo Flamengo: nos Estados Unidos não havia Flamengo. A anedota funciona porque traduz, em uma frase, a relação de Ary com o clube. Não se tratava apenas de preferência esportiva. O Flamengo fazia parte de sua vida, de sua rotina e da maneira como ele enxergava o mundo.
É justamente esse tipo de história que “Corre O Tempo No Olhar” pretende recuperar. Ao escolher Ary Barroso para abrir a série, a FlamengoTV não está apenas contando a trajetória de um compositor ou radialista. Está revisitando um período em que futebol, rádio, música, cultura popular e identidade nacional se misturaram para construir parte daquilo que hoje se entende como a força social do Flamengo.
A atração estreia em um momento no qual o clube procura ampliar a própria produção de conteúdo. A parceria com o Patrimônio Histórico permite que as histórias sejam conectadas ao acervo e aos registros preservados pelo Flamengo. Os novos episódios serão publicados às quintas-feiras.
No caso de Ary Barroso, a história começa muito antes da era digital, das transmissões em alta definição e das redes sociais. Começa no rádio, na gaitinha, nas arquibancadas, nas mesas da Confeitaria Colombo e na voz de um torcedor que jamais fez questão de esconder para quem estava torcendo. E talvez seja justamente por isso que, tantos anos depois, sua história ainda faça sentido para a Nação.
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