Jornalistas reproduzem fake news sobre fala do dono do Cruzeiro e colocam Flamengo no centro da desinformação
Uma frase que nunca existiu ganhou corpo, virou manchete informal e atravessou o noticiário esportivo como se fosse fato. O alvo foi o Flamengo, o personagem central acabou sendo Pedro Lourenço, dono da SAF do Cruzeiro, e o erro se espalhou quando jornalistas trataram como verdadeira uma declaração que já havia sido oficialmente desmentida. O episódio ocorreu no fim de dezembro e início de janeiro, em meio às negociações envolvendo Kaio Jorge, e expôs mais uma vez a fragilidade de parte da cobertura esportiva diante da pressão das redes sociais.
Ouça nossas análises e entrevistas sobre a eleição do Flamengo no seu agregador de podcast preferido: Spotify, Deezer, Amazon, iTunes, Youtube Music, Castbox e Anchor.
Tudo começou com a circulação, no Twitter e em grupos de torcedores, de uma suposta fala de Pedrinho BH. Segundo a versão viral, o empresário teria afirmado que, se vendesse seu gado, conseguiria comprar o Flamengo. A frase caiu como combustível num ambiente já inflamado pela rivalidade e pelo incômodo que qualquer movimentação rubro-negra no mercado costuma provocar. O Flamengo havia feito uma proposta por Kaio Jorge, o Cruzeiro respondeu com um valor considerado alto, e o assunto seguiu seu curso normal dentro da lógica do futebol brasileiro, onde clubes negociam entre si há décadas.
O problema surgiu quando a brincadeira de rede social ultrapassou o limite da zoeira entre torcedores e passou a ser tratada como informação jornalística. No dia 30 de dezembro, o jornal O Tempo publicou um desmentido claro: Pedro Lourenço jamais disse aquilo. A apuração ouviu pessoas próximas ao empresário, destacou o respeito dele pelo Flamengo e lembrou, inclusive, a relação institucional existente entre as diretorias. O conteúdo era público, facilmente localizável em qualquer busca básica.
Ainda assim, no dia seguinte e nos primeiros dias de janeiro, jornalistas renomados mencionaram a frase em colunas, comentários e programas ao vivo, como se fosse uma declaração real. Em alguns casos, o suposto comentário foi usado logo no primeiro parágrafo de textos analíticos, sem aspas verificáveis, sem vídeo, sem áudio e sem fonte primária. A linha do tempo deixa o equívoco ainda mais evidente: a informação falsa já estava desmentida quando voltou a circular em grandes veículos.
LIVE COMPLETA:
O contraste fica mais nítido quando se observa o próprio comportamento de Pedro Lourenço em eventos públicos. Na premiação da CBF, semanas antes, ele cumprimentou dirigentes do Flamengo, posou ao lado da taça e manteve uma postura cordial, incompatível com o tom de deboche atribuído a ele nas redes. Não havia registro algum que sustentasse a bravata. Mesmo assim, a narrativa prosperou, reforçada por comentários que misturavam opinião, memória de episódios antigos e rivalidades históricas.
A comparação com o passado ajuda a entender o mecanismo. Nos anos 2000, quando o Flamengo vivia grave crise financeira, frases como a de Felipão sobre “vender a Gávea” para contratar jogadores viraram piada recorrente. A diferença é que, naquele contexto, havia declaração pública, gravada, reproduzida à exaustão. No caso atual, tratava-se apenas de uma frase inventada, reciclada como se fosse uma atualização daquele folclore.
Nem todos permaneceram no erro. Alguns jornalistas, alertados pelo público e por colegas, voltaram atrás, reconheceram a falha e corrigiram a informação. Esse gesto, raro num ambiente que muitas vezes prefere seguir em frente fingindo que nada aconteceu, recoloca o debate no lugar correto. Errar faz parte do ofício. Persistir no erro, ignorando fatos e desmentidos, compromete a credibilidade de quem informa.
VEJA MAIS:
CASO PREFIRA OUVIR:
O episódio escancara um ponto sensível do jornalismo esportivo contemporâneo. A velocidade das redes, a pressão por engajamento e a rivalidade transformada em conteúdo criam um terreno fértil para a desinformação. Quando a checagem é substituída pelo “está todo mundo falando”, o resultado deixa de ser análise e passa a ser ruído. No caso do Flamengo, isso se repete com frequência. Qualquer narrativa que o coloque como vilão encontra terreno fácil para prosperar, mesmo quando não resiste a uma verificação mínima.
No fim, a falsa frase de Pedro Lourenço não diz nada sobre o empresário, o Cruzeiro ou o Flamengo. Diz muito mais sobre um jornalismo que, em certos momentos, abdica do básico: apurar antes de publicar.
* Atualização: PVC entrou em contato, negou ter reproduzido fake news e disse ter falado diretamente com o dono do Cruzeiro. Mais informações na matéria abaixo:
PVC entra em contato, nega reprodução de fake news e mantém fala atribuída a Pedrinho BH sobre o Fla
Veja outros vídeos sobre as notícias do Flamengo:
—
+ Siga o Blog Ser Flamengo no Twitter, no Instagram, no Facebook e no Youtube.
Descubra mais sobre Ser Flamengo
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.