Juca e Casagrande sustentam que a torcida do Corinthians não vaia. A história mostra o contrário

Juca e Casagrande sustentam que a torcida do Corinthians não vaia. A história mostra o contrário

A discussão ganhou corpo após a Supercopa do Brasil e após o empate do Fla com o Internacional e extrapolou o resultado em campo. Parte da imprensa passou a sustentar a ideia de que a torcida do Corinthians teria um comportamento superior a do Flamengo por não vaiar, enquanto o Maracanã teria “falhado” no apoio em momentos recentes de instabilidade. O debate nasceu de colunas, comentários televisivos e ecos de redes sociais, mas encontrou resistência nos fatos, na memória das arquibancadas e na própria história recente do futebol brasileiro.


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No jogo seguinte à perda do título da Supercopa, mais de 56 mil rubro-negros ocuparam o Maracanã numa noite marcada por três derrotas consecutivas em competições distintas e por um ambiente de cobrança legítima. Houve incentivo antes da bola rolar, cantos durante a partida e vaias apenas no intervalo e após o apito final, quando o resultado já estava consumado. O próprio Filipe Luís, técnico do Flamengo, reconheceu o apoio recebido e separou o desempenho ruim do comportamento da arquibancada. Quem esteve no estádio percebeu rapidamente a distância entre a narrativa construída e o que de fato aconteceu.

A origem da narrativa

A tese de que “a torcida do Corinthians não vaia” voltou a circular com força após textos assinados por colunistas influentes como Juca Kfouri. A provocação funciona porque gera engajamento imediato, cria antagonismo e simplifica um fenômeno que é, por natureza, complexo. Arquibancada não é laboratório. Ela reage a contexto, momento esportivo, histórico recente e expectativas acumuladas. Reduzir tudo a um suposto traço moral de uma torcida específica não se sustenta.

Basta recorrer aos arquivos. Em fevereiro de 1997, o Corinthians foi vaiado mesmo vencendo o Mogi Mirim, com protestos direcionados a substituições ainda no primeiro tempo. Em 2007, no Pacaembu, a derrota para o Cruzeiro resultou em vaias generalizadas, poupando apenas nomes específicos do elenco. Em 2022, Cássio falou abertamente sobre cobranças vindas das arquibancadas, defendendo o direito do torcedor de protestar. Em 2023 e 2024, empates e derrotas em casa foram acompanhados por cânticos hostis, xingamentos e manifestações contra diretoria e jogadores. Em 2025, já com Dorival Júnior no comando, o cenário se repetiu após novo tropeço no Brasileirão. Não se trata de exceções, mas de um comportamento comum a qualquer torcida grande, pressionada por desempenho abaixo do esperado.

Cultura de arquibancada não é mito

Há uma diferença importante entre vaia durante o jogo e cobrança após a partida. No Maracanã, a prática mais comum entre organizadas é responder a um gol sofrido com canto, não com protesto imediato. Isso não significava complacência, mas entendimento de tempo e espaço. Essa cultura, aprendida com a frequência ao estádio, não se reproduz automaticamente em praças onde o Flamengo joga esporadicamente. Brasília, Manaus ou Salvador têm públicos majoritariamente rubro-negros, mas com vivências distintas do torcedor que cresce indo ao Maracanã jogo após jogo.

Esse ponto ajuda a entender por que comparar arquibancadas fora de seus contextos históricos costuma gerar análises equivocadas. Não existe torcida homogênea. Existe comportamento moldado por hábito, acesso, preço de ingresso e presença ou ausência das organizadas.

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Vaia também é linguagem

A vaia, quando pontual e contextualizada, é uma forma de comunicação. Não apaga títulos recentes nem reescreve a história de um clube. O Flamengo campeão da Libertadores e do Brasileiro em 2025 não perdeu esse status porque foi cobrado em fevereiro. Da mesma forma, o Corinthians não se tornou menos apaixonado por protestar em momentos críticos, inclusive em temporadas que culminaram em rebaixamento ou brigas contra a queda.

O discurso de apoio incondicional permanente costuma aparecer quando o desempenho esportivo não permite outra forma de afirmação simbólica. Clubes atravessam ciclos. Quando a disputa por grandes títulos se afasta, surgem narrativas paralelas para sustentar uma sensação de superioridade. A história do futebol brasileiro está cheia desses movimentos, seja em São Paulo, no Rio ou em qualquer outra praça.

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Entre fato e retórica

Os dados desmontam a ideia de uma torcida que jamais vaia. A própria imprensa paulista registra, ano após ano, protestos, invasões de centro de treinamento e pressões diretas sobre elenco e dirigentes corintianos.

No caso do Flamengo, a cobrança recente não foi sinal de ruptura, mas de exigência. Um clube acostumado a disputar tudo passa a ser medido por um padrão mais alto. A arquibancada reage a isso. Negar esse direito ao torcedor é tentar transformar paixão em obediência silenciosa.

O que se viu após a Supercopa foi menos um retrato fiel das arquibancadas e mais uma disputa de narrativas. Quem esteve no estádio, quem conhece a história e quem consulta os registros sabe que não há torcida imune à vaia. Há, sim, momentos em que ela faz sentido. Fingir o contrário é faltar com a verdade.

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