Lendas, heróis, ídolos ou traíras? Gerson e Gabigol: em que prateleira eles ficam na história do Flamengo?
O debate sobre a prateleira histórica de Gerson e Gabigol no Flamengo ganhou força nos últimos meses, especialmente após as saídas recentes e a forma como cada uma delas se deu. Entre torcedores, programas esportivos e redes sociais, a pergunta deixou de ser apenas estatística ou técnica. Ela passou a tocar em algo mais sensível: memória, identificação e o peso simbólico que cada jogador carrega na história rubro-negra. Não se trata apenas do que fizeram em campo, mas de como saíram, como se posicionaram e de que maneira serão lembrados quando o tempo fizer seu trabalho mais implacável.
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O Flamengo vive desde 2019 um período espetacular. Três Libertadores, três Campeonatos Brasileiros, duas Copas do Brasil, protagonismo continental e um elenco que marcou época. Essa geração ainda está em disputa, ainda está viva, e talvez por isso o julgamento seja tão passional. A história, no entanto, costuma ser menos apressada. Ela separa ídolos de lendas com critérios que vão além do gol decisivo ou da medalha no peito.
A régua da idolatria no Flamengo
No Flamengo, idolatria nunca foi um conceito elástico. Ela não se resume a títulos ou desempenho técnico. Existe um código não escrito, transmitido entre gerações, que mistura bola jogada, postura pública, vínculo afetivo e comportamento após a saída. Por isso, Zico, Júnior, Leandro, Adílio, Andrade e Nunes ocupam um patamar quase intocável. São mais do que ídolos. São lendas. Personagens que ajudaram a construir o próprio clube como fenômeno popular.
A geração atual inevitavelmente é comparada a esse passado. Bruno Henrique, Arrascaeta e Everton Ribeiro caminham hoje para esse território mais alto. Não apenas pelo que venceram, mas pela relação construída com o clube, pela ausência de ruídos graves e pela continuidade simbólica. São figuras que, mesmo após a aposentadoria ou saída, tendem a permanecer associadas ao Flamengo de forma positiva.
Gabigol: do símbolo ao arranhão
Gabigol é um caso singular. Poucos jogadores foram tão decisivos em momentos tão emblemáticos. Dois gols em três minutos numa final de Libertadores não são apenas estatística. São imagens fundadoras de uma era. Durante anos, o debate sobre ele ultrapassou o campo e chegou a algo impensável para muitos: a discussão sobre quem seria o maior ídolo depois de Zico. Concordar ou não com isso é secundário. O simples fato de a pergunta existir já diz muito.
O problema é que a trajetória de um ídolo também é feita de gestos. E alguns deles têm peso desproporcional. A imagem de Gabigol vestindo a camisa do Corinthians enquanto ainda era jogador do Flamengo não é apenas um episódio isolado. Ela toca diretamente no imaginário do torcedor. Não se trata de desempenho, nem de negociação contratual. É código. É simbologia. É aquilo que, para o torcedor, soa como traição, ainda que juridicamente não seja.
Com o tempo, é possível que o distanciamento suavize essa percepção. A história costuma reabsorver grandes personagens. Mas hoje, no calor dos acontecimentos, Gabigol desceu uma prateleira. Não deixou de ser ídolo. Mas saiu, ao menos por agora, do território da unanimidade lendária.
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Gerson e a reincidência
O caso de Gerson é diferente, mas igualmente complexo. Na primeira saída, rumo à Europa, não houve trauma. Houve homenagem, compreensão e até orgulho. Era o roteiro clássico do talento que parte após cumprir sua missão. A segunda saída, no entanto, rompeu esse pacto silencioso. A reincidência pesa. O contexto pesa. O destino pesa. Voltar ao futebol brasileiro para defender um rival direto muda a narrativa.
Gerson caminhava para uma posição elevada na história do clube. Capitão, protagonista, identificado com a torcida, dono de um gesto simbólico que virou marca. A repetição de saídas em momentos sensíveis interrompeu esse percurso. Não apaga o que foi feito, mas cria fissuras. E a história, ao contrário da memória afetiva, registra fissuras.
Ídolos, lendas e a vulgarização do termo
Parte do ruído atual vem da banalização do conceito de ídolo. No futebol contemporâneo, qualquer jogador decisivo por alguns meses recebe o rótulo. No Flamengo, essa régua sempre foi mais dura. Rafinha, Pablo Marí e outros nomes importantes de 2019 foram fundamentais, mas não criaram lastro simbólico suficiente. Já Léo Moura, com dez temporadas como titular, ocupa um espaço maior, mesmo cercado de controvérsias.
Ser lenda exige mais. Exige continuidade, identificação, ausência de gestos que rompam o vínculo emocional. Por isso, alguns jogadores permanecem incontestáveis, enquanto outros sempre estarão sujeitos ao debate. E o debate, nesse caso, não diminui o Flamengo. Pelo contrário. Ele mostra a força de uma instituição que não depende de um único nome para existir.
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O tempo como juiz final
A história do Flamengo ensina que o tempo é o verdadeiro árbitro. Em 1981, muitos acreditavam que o Mundial seria algo recorrente. Não foi. Décadas depois, aquele feito ganhou contornos quase míticos. O mesmo acontecerá com a geração de 2019. Daqui a dez ou quinze anos, Gerson e Gabigol serão analisados com mais frieza, menos paixão e mais perspectiva.
Hoje, a prateleira de ambos está abaixo das lendas incontestáveis e acima dos jogadores apenas importantes. Gabigol segue como um dos maiores ídolos do clube, mas com a imagem arranhada. Gerson permanece como personagem relevante da era mais vencedora da história rubro-negra, mas distante do patamar lendário que parecia ao alcance. O Flamengo, como sempre, seguirá maior do que todos eles.
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