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Mercado da bola ou falta de ética? A polêmica entre Carlos Eduardo Lino e o Flamengo

Mercado da bola ou falta de ética? A polêmica entre Carlos Eduardo Lino e o Flamengo

Imagem: Reprodução/SporTV

A crítica feita pelo jornalista Carlos Eduardo Lino ao suposto movimento do Flamengo no mercado da bola reacendeu, nos últimos dias, um debate antigo no futebol brasileiro: até onde vai a ética concorrencial entre clubes que dividem a mesma liga, mas disputam interesses opostos. O tema ganhou força após um diálogo exibido no SporTV, no qual Lino classificou como “ridícula” a estratégia rubro-negra de apresentar uma oferta elevada por Jhon Arias, desejado pelo Palmeiras, movimento que teria pressionado o clube paulista a aumentar o valor final da negociação.


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A discussão surgiu no noticiário esportivo nesta semana, em meio às tratativas envolvendo Jhon Arias. Segundo o noticiário, o Flamengo teria formalizado uma proposta de 22 milhões de euros, o equivalente a cerca de 136 milhões de reais, valor suficiente para inflacionar o negócio e obrigar o Palmeiras a subir a oferta até 25 milhões. André Rizek, mediador do programa “Redação“, confirmou a dinâmica e enquadrou a situação como prática comum de mercado. Lino discordou publicamente e levou o debate para um campo mais ideológico, questionando se esse tipo de postura deveria ser normalizada em uma liga que, segundo ele, deveria caminhar para um modelo mais regulado e equilibrado.

O episódio não surgiu no vácuo. Ele dialoga com uma tensão recorrente no futebol nacional, especialmente após a profissionalização das gestões e o crescimento das diferenças financeiras entre os clubes. Desde a consolidação do Flamengo como potência econômica, a reação de parte da imprensa tem sido a de cobrar um comportamento que transcenda a lógica competitiva tradicional, como se o clube mais rico tivesse obrigações morais adicionais em nome de um suposto “bem coletivo”.

O mercado como ele é

A resposta apresentada por Rizek durante o programa partiu de um princípio simples: clubes são parceiros institucionais, mas rivais esportivos. Não existe, na prática, obrigação de proteger o orçamento do concorrente. No futebol capitalista, ganha quem convence melhor, paga mais ou oferece condições mais atraentes. Isso inclui salários, tempo de contrato, estrutura e, muitas vezes, o simples peso da camisa.

Esse tipo de movimento está longe de ser inédito. Em 2023, o Palmeiras apresentou uma proposta robusta por Bruno Henrique sabendo que, naquele momento, o Flamengo adotava uma política de renovações curtas para atletas acima dos 30 anos. A investida paulista alterou completamente o cenário. O atacante levou a oferta à Gávea, exigiu valorização salarial e mais tempo de vínculo. O resultado foi um contrato mais longo e mais caro, algo que dificilmente aconteceria sem a pressão externa. O mecanismo foi o mesmo que agora causa indignação em parte da análise.

Linha do tempo da prática

O futebol brasileiro convive com esse tipo de dinâmica há décadas. Em 2009, quando Adriano retornou ao Flamengo, o clube não tinha poder financeiro para competir com grandes propostas internacionais. O diferencial foi outro: vínculo emocional, ambiente esportivo e poder de convencimento. O Imperador chegou sem custos de transferência porque desejava vestir a camisa rubro-negra. Em 2008, ao retornar ao Brasil, escolheu o São Paulo justamente por enxergar ali a melhor estrutura para se recuperar pessoal e profissionalmente após a morte do pai. Mercado também é isso: decisão subjetiva, contexto e interesse.

O mesmo raciocínio vale para casos mais recentes. A vontade do jogador continua sendo um ativo determinante. Quando Lucas Paquetá abriu mão de disputar a Champions League, pagou passagens do próprio bolso e aceitou perdas financeiras para retornar ao Flamengo, o clube ganhou vantagem competitiva não apenas pelo dinheiro, mas pela escolha do atleta. Nenhum modelo de fair play financeiro é capaz de neutralizar esse fator humano.

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Fair play financeiro e seus limites

A crítica de Lino se ancora na ideia de que uma liga deveria proteger o equilíbrio competitivo e coibir práticas inflacionárias. O problema é que, fora de modelos extremamente regulados, como o da NBA, isso não existe. No futebol europeu, frequentemente citado como referência, clubes inflacionam negociações, atravessam interesses e usam seu poder econômico como arma estratégica. Ainda assim, ninguém questiona a legitimidade do processo dentro das regras vigentes.

O discurso de que o mercado deveria “se autorregular” ou ser moralmente controlado esbarra na realidade. Oferta e demanda seguem sendo o motor das negociações. Clubes mais organizados financeiramente tendem a montar elencos mais fortes. Isso não é desvio ético, é consequência direta de gestão, arrecadação e planejamento.

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O incômodo que transparece

O que chama atenção no episódio não é apenas o conteúdo da crítica, mas o tom. Ao longo do debate televisivo, à medida que exemplos concretos foram apresentados, o discurso foi perdendo força argumentativa e ganhando carga emocional. A mudança de postura ficou perceptível para quem acompanhou a discussão completa. Não se tratava mais de questionar um método específico, mas de manifestar desconforto com uma lógica que não será alterada por apelos retóricos.

No fundo, a controvérsia expõe um conflito recorrente entre a forma como o futebol funciona e a forma como alguns gostariam que ele funcionasse. Enquanto não houver uma liga centralizada, com teto salarial, draft e controle absoluto de contratos, o mercado seguirá sendo competitivo, desigual e, muitas vezes, implacável. Pedir que o Flamengo abdique de suas vantagens em nome de um ideal abstrato é ignorar a própria história do esporte.

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