Morre Benito di Paula: veja como o artista cantou o Flamengo em sua obra musical

O cantor, compositor e pianista Benito di Paula morreu na noite de domingo (18), aos 84 anos, em São Paulo, em decorrência de complicações de um câncer de próstata, doença contra a qual lutava havia cerca de um ano. Um dos nomes populares da música brasileira a partir da década de 1970, o artista construiu uma identidade própria ao combinar samba, piano e romantismo. Entre as marcas de sua trajetória está também a ligação com o Flamengo, clube que levou para sua obra em canções como “Charlie Brown”, na qual exaltou a força da torcida rubro-negra.
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A torcida do Flamengo na voz de Benito
Lançada na década de 1970, “Charlie Brown” tornou-se um dos grandes sucessos de Benito di Paula. Inspirada no personagem dos quadrinhos criado pelo cartunista Charles Schulz, a composição apresenta o Brasil a seu interlocutor por meio de referências à cultura, à música e a diferentes regiões do país. Nesse percurso, o compositor inclui uma declaração direta de admiração pela torcida do Flamengo, descrita na canção como incomparável.
A menção não aparece como um detalhe deslocado. Na construção da música, o Flamengo integra um retrato afetivo do Brasil, ao lado de artistas e símbolos da cultura nacional. Ao incluir a torcida rubro-negra nesse conjunto, Benito registrou em uma composição de grande alcance popular uma referência que atravessou gerações de flamenguistas. A canção ganhou diferentes gravações ao longo dos anos e permaneceu entre as obras mais lembradas de seu repertório.
A relação musical com o clube também aparece em outras composições. Segundo o levantamento apresentado pelo pesquisador Paulo Tinoco, do projeto Flamúsica, Benito cantou o Flamengo em três oportunidades: “Meu Brasil, Meu Doce Amado”, de 1976, “Vamos Cantar”, de 1979, e “Charlie Brown”, lançada na década de 1970. O registro reforça a presença rubro-negra em diferentes momentos de sua carreira, para além de uma única referência conhecida do grande público.
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Um estilo próprio no samba brasileiro
Nascido em Nova Friburgo, na Região Serrana do Rio de Janeiro, em 28 de novembro de 1941, Benito di Paula adotou o nome artístico pelo qual ficou conhecido nacionalmente. Seu nome de nascimento é registrado como Uday Vellozo. Ainda jovem, trabalhou como cantor em casas noturnas e desenvolveu uma linguagem musical que encontrou no piano um instrumento central de sua interpretação.
O reconhecimento nacional chegou nos anos 1970, quando o artista se destacou por uma maneira particular de aproximar o samba de arranjos românticos e de uma interpretação marcada pelo piano. Embora frequentemente associado ao rótulo de “samba-jóia”, Benito preferia se apresentar como “sambeiro”, reivindicando uma identidade própria dentro da música popular brasileira. Sua batida percussiva ao piano e o estilo de cantar ajudaram a diferenciá-lo de outros compositores de sua geração.
“Retalhos de Cetim”, lançada em 1973, foi um dos marcos de sua projeção. A canção retrata a frustração de um sambista que prepara o ano inteiro sua participação no Carnaval, mas vê o sonho desmoronar quando a pessoa que esperava não aparece. A interpretação intensa e a combinação de samba com elementos românticos ajudaram a consolidar a assinatura artística de Benito. Vieram depois outros sucessos, como “Charlie Brown”, “Mulher Brasileira” e “Do Jeito Que a Vida Quer”, que ampliaram sua presença no imaginário popular.
Ao longo da carreira, o músico gravou dezenas de álbuns e conquistou admiradores no Brasil e no exterior. Seu estilo também provocou resistências em setores que defendiam uma concepção mais tradicional do samba, mas Benito não abandonou a fórmula que o tornou reconhecível. Em vez de se limitar a uma escola musical, construiu um repertório próprio, apoiado na voz, no piano e em letras que dialogavam diretamente com o cotidiano e os sentimentos do público.
Uma carreira que permaneceu nos palcos
Mesmo depois do auge comercial, Benito continuou se apresentando e manteve a música como parte central de sua vida. Em 2025, sua trajetória foi homenageada pela escola de samba Águia de Ouro, de São Paulo, com um enredo inspirado em sua obra. A celebração levou para a avenida canções e passagens de sua história, reconhecendo a influência do artista na cultura popular brasileira.
Nos últimos anos, Benito também dividiu projetos musicais com o filho, Rodrigo Vellozo, com quem manteve uma parceria artística. Sua última apresentação pública ocorreu no fim de julho de 2026, em São Paulo, ao lado do filho, em um espetáculo dedicado ao legado musical da família. A presença nos palcos até perto do fim da vida reforçou a continuidade de uma trajetória que atravessou mais de cinco décadas.
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A memória que fica
Para muitos torcedores, a relação entre futebol e música faz parte da própria experiência de acompanhar o clube. No caso de Benito di Paula, essa ligação ganhou um registro duradouro em “Charlie Brown”, quando o Flamengo foi incluído entre as referências que o compositor queria apresentar ao personagem da canção. O verso tornou-se uma lembrança especialmente significativa para os rubro-negros, que encontram na obra uma forma de reconhecimento da dimensão cultural da torcida.
A morte do artista encerra uma trajetória de mais de meio século, mas não interrompe a circulação de suas canções. “Retalhos de Cetim”, “Do Jeito Que a Vida Quer” e “Charlie Brown” continuam a conectar diferentes gerações por meio de melodias que ultrapassaram o tempo de seus lançamentos. Para o Flamengo, fica também o registro de um compositor que colocou a torcida em sua música e ajudou a levar o nome do clube para além dos estádios.
Benito di Paula deixa uma contribuição singular à música brasileira: um samba que encontrou no piano uma voz própria e que não precisou se afastar de suas raízes populares para alcançar grandes públicos. Sua obra permanece como parte da memória cultural do país e, para a Nação rubro-negra, como a lembrança de que a paixão pelo Flamengo também encontrou espaço em uma das canções mais conhecidas de sua carreira.
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