Nota da ESG sobre Gazela Negra não encerra caso e mantém dúvidas sobre dependência de Erica Lopes

Nota da ESG sobre Gazela Negra não encerra caso e mantém dúvidas sobre dependência de Erica Lopes
Foto: Gilson Lima / Ser Flamengo

A Escola Superior de Guerra enviou ao ge uma nota oficial sobre o pedido de reconhecimento de dependência econômica de Erica Lopes da Silva, a Gazela Negra do Flamengo, e deslocou o centro da controvérsia para a judicialização do caso. Aos 89 anos, às vésperas de completar 90, a ex-velocista tenta acompanhar a filha, Erica Simone Almeida Resende, servidora da ESG designada para uma missão oficial nos Estados Unidos. A instituição afirma que solicitou documentação, mas diz que a professora levou o pleito à Justiça antes de entregar o material pedido, o que teria impedido a continuidade administrativa. Do outro lado, a família sustenta que apresentou provas, que a situação já se arrasta há meses e que a recusa coloca uma idosa dependente diante de uma insegurança incompatível com uma missão que pode durar até dois anos.


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A resposta oficial da ESG é curta, formal e defensiva. Segundo a nota publicada pelo ge, a Escola informou que “solicitou, por meio de despacho decisório deste Comando, a documentação necessária para comprovação da dependência econômica da Sra. Erica Lopes”. Em seguida, acrescentou que, “antes de entregar a documentação solicitada, a docente judicializou o pleito”, impedindo a sequência administrativa. Por fim, afirmou que, como o processo tramita na Justiça Federal, é necessário aguardar a decisão judicial, informação que já teria sido transmitida à professora Erica por meio de despacho decisório do Comando.

O posicionamento oficial não encerra a discussão. Ao contrário, abre novas perguntas. A primeira é objetiva: quais documentos a ESG considera ausentes, insuficientes ou indispensáveis? A segunda é cronológica: em que momento a instituição solicitou essa documentação e em que momento a docente recorreu ao Judiciário? A terceira é administrativa: se havia documentos já apresentados, por que eles não foram considerados aptos a comprovar a dependência? A quarta é humana: diante de uma mulher idosa, com limitações de locomoção, residente com a filha e em situação de cuidado cotidiano, a burocracia deve apenas aguardar a Justiça ou tem o dever de explicar com precisão onde estaria o impedimento?

O caso não envolve uma personagem anônima da história esportiva brasileira, embora a dignidade de qualquer idoso não dependa de medalhas. Erica Lopes nasceu em Porto Alegre, em 24 de julho de 1936, brilhou nas provas de velocidade, tornou-se recordista sul-americana em 1963 nos 100m, nos 200m e no revezamento 4x100m, além de medalhista de bronze nos Jogos Pan-Americanos daquele ano. No Flamengo, clube pelo qual alcançou seu auge, ficou conhecida como Gazela Negra, entrou para a Calçada da Fama e passou a ser considerada a maior velocista rubro-negra de todos os tempos. A atleta que um jornal venezuelano chamou de “a atleta que corre sorrindo” agora se vê obrigada a pedir reconhecimento para permanecer ao lado da única filha que cuida dela.

A nota da ESG e o ponto que ainda falta explicar

A resposta da Escola Superior de Guerra procura estabelecer uma linha de defesa clara: a instituição diz que pediu documentos, mas a judicialização teria interrompido a análise administrativa. Essa versão, no entanto, não responde ao ponto mais sensível levantado por Erica Simone na entrevista ao Ser Flamengo e na reportagem do ge. A filha afirma que já apresentou documentos para comprovar a dependência econômica da mãe e que eles foram recusados. Entre os itens citados estão escritura pública de dependência econômica, comprovante de residência comum, inclusão da mãe em seguro de vida e funerário, além de declaração médica indicando a filha como responsável por decisões de saúde.

A divergência, portanto, não parece estar apenas na existência de uma judicialização. Ela está no percurso anterior, na avaliação da documentação e na interpretação de dependência econômica aplicada a uma servidora civil em missão oficial. Quando a ESG afirma que a professora judicializou o pedido antes de entregar a documentação solicitada, a instituição constrói uma narrativa em que a via administrativa teria sido interrompida pela própria interessada. Quando Erica Simone afirma que apresentou quatro documentos e teve todos recusados, a narrativa muda de eixo: a ida à Justiça aparece como consequência de uma negativa ou de uma resistência administrativa, não como causa da paralisação.

É justamente esse intervalo que precisa ser esclarecido. Uma nota oficial pode informar que o processo está judicializado, mas isso não basta para explicar o que ocorreu nos meses anteriores. Se a ESG considera que os documentos eram inadequados, deveria apontar com clareza quais critérios não foram atendidos. Se entende que faltou alguma prova específica, precisa dizer qual era essa prova e por que os elementos apresentados não serviram. Se sustenta que a judicialização travou a via administrativa, seria necessário demonstrar em que momento esse bloqueio ocorreu e se ainda haveria margem para solução consensual, sobretudo diante da urgência do embarque e da idade de Erica Lopes.

A instituição tem o direito de se defender e de observar os limites legais. Nenhum órgão público deve reconhecer dependência sem critério, principalmente em missões no exterior, onde há efeitos funcionais, migratórios e eventualmente financeiros. O problema é que o caso de Erica Lopes exige mais do que uma resposta protocolar. Quando há uma idosa prestes a completar 90 anos, uma filha em missão oficial e documentos que, segundo a família, foram apresentados e rejeitados, a administração precisa ser precisa, transparente e proporcional. Uma nota que transfere a solução para a Justiça pode até proteger a instituição do ponto de vista formal, mas não necessariamente responde ao drama concreto que ela própria ajudou a produzir.

O que está em disputa: dependência, passaporte oficial e visto A-2

O centro prático da discussão é o reconhecimento de Erica Lopes como dependente da filha. Esse reconhecimento permitiria, segundo Erica Simone, a emissão de passaporte oficial e a solicitação do visto A-2, adequado para familiares vinculados a representantes ou servidores de governo em missão oficial nos Estados Unidos. Sem essa condição, restaria à ex-atleta a tentativa de obter visto de turista, limitado a uma permanência de seis meses, insuficiente para uma missão que pode durar até dois anos e inseguro para uma idosa que afirma não ter condições de ficar sozinha no Rio de Janeiro.

Na entrevista ao Ser Flamengo, Erica Simone explicou o impacto direto da negativa. “A minha mãe, reconhecida como minha dependente, receberia um passaporte oficial, com o qual receberia o visto adequado, o A-2, do consulado americano, em que ela pode permanecer enquanto durar a minha missão. Sem esse reconhecimento, o que nos sobra é ela ir num visto de turista com o limite de seis meses. E depois de seis meses eu não sei o que acontece. Então isso cria uma insegurança muito forte”, afirmou.

A fala mostra por que a discussão não pode ser reduzida a uma disputa documental. O passaporte oficial não é, nesse caso, um adereço de status. Ele seria o instrumento para permitir o enquadramento migratório adequado de uma familiar dependente durante uma missão do Estado brasileiro. Sem esse passo anterior, o problema se desloca para o consulado, para o prazo de permanência, para a incerteza após seis meses e para a possibilidade de a servidora ter de escolher entre a oportunidade profissional e o cuidado da mãe.

A ESG, na nota enviada ao ge, evita entrar nesse mérito. Não explica se reconhece a necessidade familiar, se discorda da dependência econômica, se considera insuficientes os documentos apresentados ou se entende que o processo judicial impede qualquer manifestação adicional. O silêncio sobre esses pontos pesa porque a própria instituição é a ponte entre a servidora e o reconhecimento necessário para a emissão dos documentos. Ao dizer apenas que é preciso aguardar a Justiça, a Escola Superior de Guerra coloca o relógio institucional em ritmo diferente do relógio da vida de uma mulher idosa.

A versão da família e a sequência do impasse

Erica Simone Almeida Resende não é uma acompanhante eventual. Ela é bacharel em Direito pela UFRJ, tem complementação em Relações Internacionais pela PUC-Rio, é mestre e doutora em Ciência Política pela USP, professora adjunta da Escola Superior de Guerra e pesquisadora de política externa norte-americana, segurança internacional, análise de discursos e teorias de Relações Internacionais. Sua ida aos Estados Unidos decorre de uma missão oficial ligada à sua trajetória acadêmica e funcional, não de uma viagem particular. A filha afirma que desde o início comunicou a situação da mãe e buscou uma solução institucional.

Na entrevista, Erica Simone relatou que a portaria citada por ela prevê meios de prova para dependência econômica e que apresentou quatro documentos, embora o mínimo exigido fosse de dois. Segundo sua versão, todos foram recusados sob o argumento de que não constituiriam prova idônea e seriam declarações unilaterais sem peso suficiente. Ela também contestou a aplicação de parâmetros que, em sua avaliação, fariam sentido para dependência econômica de militares, mas não para uma servidora civil. Esse detalhe é relevante porque a ESG segue princípios militares, mas também possui servidores civis, o que torna a interpretação normativa uma parte sensível da controvérsia.

A filha também rebateu a ideia de que a renda de Erica Lopes afastaria a dependência. “O que ela recebe não dá para cobrir tudo. Eu pago exames e procedimentos médicos, remédios, comida, bebida, condomínio, tudo, mas não reconhecem. E eu estou nessa situação muito desconfortável, há quatro meses lutando por isso”, afirmou. A frase toca num ponto que a burocracia costuma tratar mal: dependência econômica não se resume à ausência absoluta de renda. Uma pessoa idosa pode receber aposentadoria e ainda depender de alguém para despesas médicas, decisões de saúde, moradia, deslocamentos, alimentação, rotina doméstica e acompanhamento permanente.

Segundo a reportagem do ge, Erica Lopes tem saúde debilitada por diabetes e problemas renais, recebe injeções diárias de insulina e toma cerca de doze remédios por dia. A filha, de acordo com a mesma apuração, cuida da mãe desde 2018, quando a ex-atleta ficou viúva. Esse contexto reforça a pergunta que a nota da ESG não enfrenta: quando o cuidado é contínuo, a residência é comum e há uma relação documentada de responsabilidade, qual é o critério exato que impede o reconhecimento?

A Gazela Negra diante da burocracia

A dimensão humana do caso aparece de forma mais dura nas falas de Erica Lopes. A ex-velocista, que construiu parte da história do atletismo brasileiro e rubro-negro, não recorre apenas à memória esportiva por vaidade. Ela usa a própria biografia para cobrar coerência de um Estado que aplaudiu suas vitórias, mas agora, segundo ela, não reconhece sua necessidade mais básica: permanecer junto da filha que a acompanha no dia a dia.

Eu estou muito triste com a atitude do Exército, porque eu defendi o Exército, ganhei Sul-Americano, hasteei a bandeira brasileira. Muitos dos militares não fizeram isso. E agora me negam o visto para permanecer com a minha filha lá, cuidando de mim, porque eu tenho 90 anos e já estou debilitada de locomoção. Não posso ficar sozinha no Rio de Janeiro”, afirmou Erica Lopes, a Gazela Negra do Flamengo.

A fala pode incomodar pela comparação com militares, mas revela a percepção de uma mulher que se sente abandonada por uma estrutura que, em algum momento de sua trajetória, ela acredita ter representado. Erica não está discutindo um benefício abstrato. Ela fala da própria velhice, da limitação para se locomover, da impossibilidade de ficar sozinha e da sensação de que sua história só serve quando cabe em homenagem, mural, samba ou discurso institucional.

O apelo ao ministro, feito durante a conversa, reforça o caráter público da cobrança. “Eu queria apelar para o ministro. Eu defendi o Brasil, ganhei provas em atletismo levantando o nome do nosso país. Como é que eu não tenho o direito de pedir uma simples permanência ao lado da minha filha, que cuida de mim?”, questionou. A palavra “simples” é o ponto mais doloroso da frase, porque aquilo que parece simples no plano humano se tornou complexo no labirinto administrativo.

A história que dá peso ao presente

Erica Lopes não é apenas a mãe de uma servidora em missão. Ela é uma das maiores personagens do atletismo rubro-negro. Teve passagens por Internacional e Grêmio, venceu os 100m e os 200m no Troféu Brasil de 1958 como atleta gremista e chegou ao Flamengo no final de 1960. No clube carioca, encontrou o ambiente em que alcançaria o auge, conquistando títulos estaduais, nacionais e continentais, além de se tornar referência para o esporte feminino em uma época de pouca estrutura e menor visibilidade.

Pelo Flamengo, venceu os 100m e os 200m no Troféu Brasil de 1962 e repetiu o feito em 1965. No Campeonato Sul-Americano de 1963, subiu ao lugar mais alto do pódio nas duas provas, sagrando-se tricampeã sul-americana e consolidando seu nome no continente. A imprensa venezuelana a chamou de “a atleta que corre sorrindo”, expressão que sobreviveu porque parecia traduzir a leveza de uma velocista que, mesmo em provas decididas por centésimos, impressionava também pela forma de competir.

Seu nome está na Calçada da Fama do Flamengo e sua imagem integra a memória poliesportiva do clube. A Gazela Negra representa um Flamengo que não cabe apenas no futebol, um clube de pistas, piscinas, ginásios, quadras e atletas que vestiram o escudo em modalidades muitas vezes esquecidas pela cobertura diária. Quando uma personagem desse tamanho precisa recorrer a entrevistas para pedir que o Estado reconheça sua dependência familiar, o caso deixa de ser apenas administrativo e passa a ser também um teste de memória pública.

Essa memória, porém, não deve servir para estabelecer uma hierarquia de idosos dignos de cuidado. O ponto não é dizer que Erica Lopes merece atenção porque foi campeã, como se os anônimos pudessem ser ignorados. O ponto é ainda mais grave: se uma atleta conhecida, homenageada e reconhecida pelo Flamengo encontra tanta resistência para provar uma situação de cuidado, o que acontece com quem enfrenta a mesma burocracia sem sobrenome público, sem torcida mobilizada e sem acesso à imprensa?

Judicialização como causa ou consequência?

A nota da ESG tenta organizar a narrativa a partir da judicialização. A instituição diz que, uma vez acionada a Justiça Federal, não poderia mais dar sequência administrativa ao caso e que a decisão judicial precisa ser aguardada. Essa afirmação pode ter fundamento formal, mas não elimina a necessidade de examinar o que levou a família ao Judiciário. A judicialização, em muitos conflitos com o poder público, não nasce como primeira escolha. Frequentemente aparece quando a via administrativa se mostra lenta, insuficiente, contraditória ou incapaz de produzir resposta em tempo útil.

Pelo relato de Erica Simone, a tentativa institucional ocorreu antes da ação judicial. Ela diz estar há quatro meses tentando resolver o impasse, afirma ter apresentado documentos e sustenta que eles foram recusados. A reportagem do ge também registra que a filha buscou soluções internas desde que foi chamada para a missão, em fevereiro, sem sucesso. Nesse cenário, a frase da ESG sobre a judicialização precisa ser lida com cuidado: ela explica o estágio atual do processo, mas não necessariamente esclarece a origem do conflito.

A pergunta central é se houve uma negativa substantiva antes da ida à Justiça ou se havia apenas uma solicitação pendente de documentação. Essa diferença muda a leitura do caso. Se a ESG pediu documentos e a professora judicializou antes de entregá-los, a instituição pode alegar interrupção prematura da via administrativa. Se, como afirma a família, documentos foram apresentados e recusados, a ação judicial aparece como tentativa de reverter uma barreira já instalada. A nota oficial não oferece elementos suficientes para resolver essa contradição.

Em reportagem, nota oficial não deve ser descartada, mas também não pode ser tratada como ponto final quando há lacunas relevantes. A função do jornalismo, nesse caso, é colocar as versões lado a lado, identificar o que cada uma responde e apontar o que permanece sem explicação. A ESG falou, mas ainda não detalhou. A família falou, mas a documentação precisa ser examinada pelas instâncias competentes. Entre uma versão e outra, há uma idosa que não pode esperar indefinidamente.

O Estado que exige cuidado e dificulta o cuidado

A crítica mais forte de Erica Simone aparece quando ela discute o dever de cuidado. A filha lembra que o Estado brasileiro impõe obrigações familiares em relação à pessoa idosa, mas, segundo ela, dificulta o cumprimento dessa responsabilidade quando nega o reconhecimento da dependência. O argumento é poderoso porque desloca a questão do campo burocrático para o campo da coerência institucional. Se a filha é responsável por cuidar da mãe, como cumprir essa obrigação durante uma missão oficial no exterior sem o enquadramento que permita a permanência regular da idosa?

Essa contradição fica ainda mais sensível quando se considera que Erica Simone afirma ter curatela da mãe e ser responsável pelo cotidiano dela. Não se trata de levar uma acompanhante por conveniência, mas de preservar uma relação de cuidado, convivência e proteção. A própria legislação brasileira sobre idosos reconhece a importância da dignidade, da saúde, do bem-estar e da convivência familiar. O problema é que, quando esses princípios encontram a administração pública, muitas vezes viram abstrações bonitas demais para os discursos e fracas demais para mover despachos.

Também há uma camada de gênero nesse debate. Erica Simone afirmou que o cuidado com idosos costuma recair sobre mulheres e segue invisível em espaços de decisão. A frase merece atenção. O Brasil envelhece, as famílias mudam, as missões públicas se internacionalizam, mas parte da burocracia ainda parece funcionar como se todo servidor tivesse uma estrutura familiar tradicional, estável, masculina e acompanhada por alguém disponível para cuidar de quem fica. Quando uma mulher servidora, sem marido ou filhos, precisa levar a mãe idosa sob seus cuidados, a norma parece menos preparada para enxergar a realidade.

É nesse ponto que a nota da ESG parece mais insuficiente. Ao dizer que pediu documentos e que agora aguarda a Justiça, a instituição se posiciona juridicamente, mas não enfrenta a pergunta ética e administrativa do caso. Quem cuida de Erica Lopes se a filha embarca sem ela? Quem assume a responsabilidade prática por uma idosa com limitações, histórico médico e dependência cotidiana? A resposta não pode ser uma abstração, porque a consequência também não é abstrata.

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O drama atual: a filha, a missão nos Estados Unidos e a insegurança do visto

A partir de determinado momento, a conversa deixou a memória esportiva e entrou no drama atual da família. Erica Simone Almeida Resende, filha de Erica Lopes, é servidora da Escola Superior de Guerra e foi designada para uma missão oficial nos Estados Unidos. O problema, segundo relatado na entrevista, está na resistência da instituição em reconhecer Erica Lopes como dependente da filha, condição que permitiria a emissão de passaporte oficial e a solicitação do visto A-2, adequado à permanência durante a missão.

Erica Lopes resumiu sua dor com palavras duras. “Eu estou muito triste com a atitude do Exército, porque eu defendi o Exército, ganhei Sul-Americano, hasteei a bandeira brasileira. Muitos dos militares não fizeram isso. E agora me negam o visto para permanecer com a minha filha lá, cuidando de mim, porque eu tenho 90 anos e já estou debilitada de locomoção. Não posso ficar sozinha no Rio de Janeiro”, afirmou. A frase uniu passado e presente, medalha e cuidado, orgulho e desamparo.

A ex-atleta também fez um apelo direto. “Eu queria apelar para o ministro que veja isso, porque eu defendi o Brasil, ganhei provas em atletismo levantando o nome do nosso país. Como é que eu não tenho o direito de pedir uma simples permanência ao lado da minha filha, que cuida de mim?”, questionou. A pergunta não tem apenas valor emocional. Ela evidencia a contradição de uma estrutura pública que valoriza símbolos nacionais em cerimônias, mas pode se mostrar insensível quando uma mulher que levantou a bandeira brasileira precisa de uma solução concreta para não ficar desassistida.

Erica Simone explicou que, sem o reconhecimento de dependência, a alternativa seria um visto de turista, com limite de seis meses. A missão pode durar até dois anos, o que deixaria mãe e filha diante de uma insegurança incompatível com a situação de uma idosa que depende de cuidados cotidianos. A filha afirmou ter apresentado quatro documentos, embora a portaria citada por ela exigisse no mínimo dois entre 17 possibilidades. Segundo seu relato, todos foram recusados sob o argumento de que não constituiriam prova idônea e seriam declarações unilaterais sem peso suficiente.

O silêncio do detalhe

O detalhe que falta na nota é justamente o detalhe que importaria. A ESG não diz quais documentos foram pedidos, quais foram entregues, quais foram recusados, qual norma foi aplicada, qual interpretação prevaleceu e por que a dependência econômica não teria sido comprovada. Também não informa se houve possibilidade de saneamento, complementação documental ou reanálise antes da judicialização. Em casos delicados, a ausência dessas informações transforma a nota em uma peça de contenção, não em esclarecimento público.

É evidente que há limites para a exposição de processos administrativos e judiciais, especialmente quando envolvem dados pessoais. Ainda assim, seria possível explicar critérios gerais sem violar privacidade. A instituição poderia informar, por exemplo, quais requisitos precisam ser atendidos para o reconhecimento de dependência em missão oficial, se há diferença entre servidor civil e militar, se a existência de aposentadoria impede ou não o enquadramento, e se documentos como escritura pública, prova de residência comum e atestado médico podem ser considerados. A falta de explicação alimenta a sensação de que a resposta oficial está mais preocupada em justificar a paralisação do que em iluminar o problema.

O caso também revela a dificuldade do Estado em lidar com arranjos familiares reais. A reportagem do ge aponta que o decreto que regula direitos de civis e militares em missão no exterior é de 1973 e não reflete mudanças sociais consolidadas. Esse dado ajuda a entender por que uma situação aparentemente objetiva pode virar disputa: as normas que regem missões oficiais podem carregar uma visão antiga de família, dependência e função pública. Quando a vida contemporânea chega com seus casos concretos, a administração precisa interpretar com inteligência, não apenas repetir fórmulas herdadas de outro tempo.

O risco, nesse tipo de processo, é transformar o cuidado em suspeita. Uma filha que mora com a mãe idosa, paga despesas, administra decisões médicas e busca acompanhá-la durante missão oficial passa a ser tratada como alguém que precisa provar o óbvio até a exaustão. Uma mãe que depende da filha passa a ser submetida ao constrangimento de ver sua condição discutida em despachos, portarias e notas. A burocracia, quando perde o senso de proporção, não apenas organiza documentos. Ela também produz sofrimento.

A bandeira, o Flamengo e a responsabilidade pública

Erica Lopes repetiu durante a entrevista que levantou a bandeira brasileira. A frase tem força simbólica porque vem de alguém que, literalmente, representou o país em competições internacionais. Ela correu pelo Brasil, ganhou medalhas, bateu recordes, defendeu o Flamengo, treinou atletas e construiu uma trajetória que hoje deveria provocar cuidado institucional. Quando afirma que não pode ficar sozinha no Rio de Janeiro, a Gazela Negra não está pedindo homenagem. Ela está pedindo uma solução.

O Flamengo aparece nesse episódio como memória, não como autoridade administrativa. O clube não decide passaporte, visto ou dependência funcional. Ainda assim, a história rubro-negra de Erica Lopes ajuda a dar visibilidade a um caso que, sem o peso de seu nome, talvez ficasse restrito a um processo silencioso. A Gazela Negra está na Calçada da Fama, foi lembrada em sambas, homenageada por torcedores e reverenciada como patrimônio esportivo. Essa rede de afeto não substitui o Estado, mas pode impedir que a lentidão oficial atue sem cobrança pública.

A cobertura do Ser Flamengo e a reportagem do ge cumprem papéis complementares. A entrevista de Tulio Rodrigues e Gilson Lima mostrou a fala direta de Erica Lopes e de Erica Simone, com emoção, indignação e detalhes do cotidiano. A matéria de Priscilla Basilio acrescentou o posicionamento oficial da ESG e ampliou a repercussão do caso. Agora, com a nota pública da instituição, a discussão entra em outro estágio. Não se trata mais apenas de denunciar uma recusa, mas de examinar se a justificativa apresentada responde de fato às questões levantadas.

Até aqui, a resposta é incompleta. A ESG afirma que a judicialização impede a continuidade administrativa, mas não esclarece suficientemente por que a demanda chegou a esse ponto. A família afirma que apresentou documentos, mas a instituição sustenta que a documentação necessária não teria sido entregue antes da ação judicial. Entre as duas versões, está uma atleta prestes a completar 90 anos, com saúde fragilizada, dependente da filha e diante de uma contagem regressiva que não respeita o ritmo lento dos processos.

O que a nota não consegue apagar

A nota oficial da Escola Superior de Guerra tenta reorganizar a narrativa, mas não apaga o essencial. Erica Lopes precisa de uma solução para permanecer ao lado da filha durante uma missão oficial. Erica Simone precisa cumprir uma designação profissional sem abandonar o cuidado com a mãe. O Estado precisa explicar, com transparência e humanidade, por que uma relação de dependência aparentemente documentada não foi reconhecida ou por que a documentação apresentada não bastou. A Justiça Federal poderá decidir o processo, mas a discussão pública não se encerra na existência de uma ação judicial.

Há casos em que a burocracia se protege tanto que deixa de enxergar a pessoa. Este parece ser o risco aqui. Uma campeã sul-americana, recordista continental, medalhista pan-americana e maior velocista da história do Flamengo não deveria precisar transformar sua velhice em pauta jornalística para pedir escuta. Ainda assim, foi isso que aconteceu. Se a ESG tem razões jurídicas consistentes, precisa apresentá-las de modo mais claro. Se há margem administrativa para resolver, deve buscá-la antes que a espera judicial se transforme em dano irreversível.

O ponto final dessa história ainda não foi escrito. A nota da ESG informa que a decisão está nas mãos da Justiça, mas a responsabilidade institucional não desaparece quando um processo muda de fórum. O país que celebra seus atletas nas vitórias precisa aprender a reconhecê-los também quando já não correm, quando precisam de cuidado e quando dependem de uma caneta pública para continuar ao lado de quem os ampara. Erica Lopes levantou a bandeira brasileira nas pistas; agora, a pergunta que fica é se o Estado brasileiro será capaz de levantar os olhos dos papéis para enxergar a mulher por trás do processo.

A nota oficial da ESG:

Com relação à demanda recebida informo que a Escola Superior de Guerra solicitou, por meio de despacho decisório deste Comando, a documentação necessária para comprovação da dependência econômica da Sra. Érica Lopes. No entanto, antes de entregar a documentação solicitada, a docente judicializou o pleito, impedindo, a partir de então, que a Escola pudesse dar sequência administrativa à demanda. Considerando que atualmente o processo está em trâmite perante a Justiça Federal, é necessário que se aguarde a decisão judicial. Tal informação já foi transmitida à professora Érica por meio de despacho decisório deste Comando.”

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