Nunes relembra infância, chegada de Fusca ao Flamengo, Copas perdidas e legado rubro-negro

João Batista Nunes de Oliveira, o Nunes, voltou a sentar diante de uma câmera para falar de Flamengo, mas o que apareceu na BraboTV foi maior do que uma conversa sobre gols, taças e lembranças de 1981. O “João Danado”, artilheiro das decisões e personagem decisivo da geração mais vitoriosa da história rubro-negra, revisitou a infância em Feira de Santana, a chegada à Gávea, a convivência com Zico, a frustração de ficar fora de Copas do Mundo, a fé que guiou sua carreira e a certeza de que sua vida se confunde com a história do clube. Em um programa apresentado como especial e histórico, o artilheiro não apenas recordou o passado. Ele mostrou por que certos ídolos permanecem vivos na memória da torcida: porque os gols explicam uma parte, mas a humanidade sustenta o resto.
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A entrevista começou com o tom de reverência que o personagem exige. Rafa Penido, Tulio Rodrigues e Gilson Lima receberam Nunes como um nome que “enche a mesa de gol e de taça”, lembrando que poucos jogadores decidiram tanto para o Flamengo em momentos tão pesados. Gilson, que viu o atacante jogar entre o fim dos anos 1970 e o início dos anos 1980, resumiu o sentimento de uma geração de torcedores que acompanhou ao vivo aquele time histórico.
O menino de Feira de Santana
A parte mais forte da entrevista talvez esteja distante das grandes finais. Nunes voltou ao tempo em que era um garoto em Feira de Santana, vendendo laranja e bolinho de aipim com a mãe na porta do estádio. A lembrança não veio como adereço emocional, mas como origem concreta de uma trajetória construída com dificuldade, sonho e convicção. Ele contou que seu pai transformou um sapato em chuteira, porque o material de couro permitia adaptar o calçado para jogar bola. Era a primeira chuteira de um menino que ainda não sabia onde chegaria, mas já imaginava vestir o Flamengo e jogar no Maracanã.
A cena ganha ainda mais força quando Nunes relata que, em um jogo em Feira de Santana, o Flamengo estava em campo e Garrincha, já em fim de carreira, vestia a camisa rubro-negra. Para o menino João, aquele encontro virou símbolo de oportunidade. Ele tirou uma foto com Garrincha e passou a alimentar com mais clareza o desejo de chegar ao Rio, vestir o manto e realizar o objetivo que parecia distante demais para quem descascava laranja na entrada de estádio. Nunes diz que nunca imaginou se tornar pessoa pública ou grande jogador, mas aponta disciplina, respeito e profissionalismo como elementos que o conduziram.
Essa origem ajuda a explicar por que Nunes fala do Flamengo com um senso de pertencimento diferente. Para ele, o clube não foi apenas um contrato ou uma vitrine. Foi destino. Foi promessa íntima de infância. Foi a travessia entre o garoto baiano e o ídolo de uma torcida nacional. Quando um jogador constrói esse caminho, a camisa deixa de ser uniforme e vira biografia.
A chegada de Fusca e a espera na Gávea
O caminho até o Flamengo também não teve glamour. Nunes contou que não chegou ao Rio em Mercedes, BMW ou Ferrari. Chegou de Fusca, trazido por um ex-jogador que estava no Fluminense de Feira de Santana e entrou de férias. A viagem, carregada de ansiedade, teve até parada de três dias em Além Paraíba, o que deixou o garoto inquieto, porque ele sentia que o Flamengo o esperava na Gávea. Ao avistar o Rio de Janeiro depois de descer a Serra de Petrópolis, respirou fundo e entendeu que a vida estava mudando.
Na Gávea, porém, a porta não se abriu de imediato. Nunes foi recebido por Tomires, mas precisou aguardar. Walter Miraglia, que o conhecia de Feira de Santana, já trabalhava nos juniores do Flamengo, em um grupo que reunia nomes como Zico, Geraldo, Cantarelli, Rondinelli, Jaime de Almeida, Nei e outros garotos que formariam parte importante do futuro rubro-negro. Sem vaga na concentração, Nunes ficou três meses sem treinar, morando em Santa Teresa, na casa de Walter. Quando a chance apareceu, ouviu que deveria arrumar as coisas para se apresentar ao clube. A resposta dele foi de quem já havia ensaiado aquele momento por anos: confiança.
Essa passagem revela uma dimensão esquecida do futebol antigo. Antes das estruturas modernas, dos centros de treinamento tecnológicos e dos empresários administrando destinos de adolescentes, havia o improviso, a rede de confiança, a espera, o favor, a casa de alguém, a concentração como abrigo e a chance que podia demorar meses. Nunes não romantiza a dificuldade, mas a transforma em parte de sua formação. O primeiro treino, segundo ele, confirmou a convicção: foi aprovado e ainda brincou dizendo que deu tantos dribles em Vanderlei Luxemburgo que o futuro treinador ficou tonto.
OUTROS VÍDEOS SOBRE ÍDOLOS DO FLAMENGO:
Fé, disciplina e vida rubro-negra
Ao longo da entrevista, Nunes repetiu uma ideia que parece atravessar toda sua história: pensamento positivo. Ele disse não gostar de palavras negativas, afirmou se afastar de ambientes pesados e colocou a fé como base de sua trajetória. Para ele, saúde, gratidão e confiança em Deus sustentaram os momentos bons e ruins. Não é discurso decorativo. Em sua narrativa, a fé aparece como mecanismo de resistência diante das frustrações, das esperas e das lesões que tiraram dele oportunidades enormes.
Quando fala do Flamengo, Nunes não separa o clube de sua rotina. Disse que sua vida é de casa para a Gávea, da Gávea para casa, de casa para o aeroporto, do aeroporto para casa, de casa para o Maracanã e do Maracanã para casa. A frase, simples, tem peso histórico. Nunes sabe que faz parte da memória rubro-negra e afirma que aquilo que sua geração realizou pelo clube jamais será apagado enquanto o mundo existir. Não é arrogância. É consciência de legado.
O atacante que quase foi à Copa
A conversa também passou pela Seleção Brasileira. Nunes recordou que, depois de três anos como profissional, já estava na seleção para a Copa do Mundo de 1978, na Argentina. Segundo ele, foi como reserva de Reinaldo, do Atlético-MG, mas tomou a posição durante treinamentos e jogos, tornando-se titular. A lesão no tornozelo, faltando uma semana para a competição, tirou seu lugar e o deixou abalado. Em 1982, uma cirurgia no joelho também impediu a participação na Copa da Espanha. A frustração é evidente, mas Nunes concluiu com uma frase que devolve tudo ao Flamengo: o mais importante é ser campeão do mundo pelo clube.
Essa declaração explica uma parte essencial da identidade rubro-negra. A Copa do Mundo é o maior palco do futebol de seleções, mas Nunes conquistou uma eternidade própria no Flamengo. Ele poderia ser lembrado pelo que perdeu na Seleção. Preferiu se firmar pelo que venceu no clube. Para uma Nação que se entende como maior do que fronteira geográfica, a frase faz sentido. Nunes foi campeão do mundo pelo Flamengo e virou ídolo de uma torcida que não disputa Copa, mas se reconhece como país sentimental.
Sobre seleções, Nunes foi objetivo. Para ele, a melhor é a que vence. Reconheceu a Seleção de 1970 como a maior que viu, elogiou a inteligência de João Saldanha e Zagallo na montagem do time, citou Carlos Alberto, Brito, Piazza, Everaldo, Clodoaldo e fez uma defesa firme de Gérson, dizendo que quem fala mal do Canhotinha precisa “lavar a boca”. A fala mostra um ex-jogador que valoriza resultado, mas não despreza inteligência tática, adaptação de funções e personalidade.
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Música, livro, documentário e projeto social
O Nunes da entrevista não está preso ao passado. Ele falou de documentário, segunda biografia, conversas com pessoas do meio artístico e expectativa de lançar um projeto no aniversário da conquista mundial, em 13 de dezembro. Citou encontros, articulações e até uma conversa marcada com Márcio Garcia para apresentar ideias.
Mais importante do que isso, Nunes relacionou sua imagem pública a um projeto de ajudar crianças e adolescentes carentes, oferecendo formação cidadã e mostrando caminhos. Para ele, a pessoa é mais importante do que o ídolo. A frase é bonita porque inverte a lógica comum do futebol, em que a celebridade muitas vezes engole o ser humano. Nunes parece entender que a reverência recebida por seus gols só tem sentido se for devolvida em presença, respeito e exemplo.
No fim, a entrevista com Nunes funciona como documento de uma memória que o Flamengo precisa preservar com cuidado. Não apenas porque ele fez gols decisivos, ganhou títulos ou pertenceu à geração de ouro, mas porque sua trajetória reúne elementos que explicam a própria construção do clube como fenômeno popular. O menino que vendia laranja em Feira de Santana, chegou de Fusca ao Rio, esperou três meses por uma chance na Gávea, foi cortado de Copas, decidiu finais, virou campeão mundial e ainda fala com a torcida como quem conversa na calçada é uma síntese rara do futebol brasileiro. Nunes não é apenas um personagem da história rubro-negra. É uma prova viva de que o Flamengo também se fez por gente que atravessou o país carregando sonho, chuteira improvisada, fé e fome de Maracanã.
NUNES 70 ANOS: BRASILEIRO DE 80, MUNDIAL DE 81, PEDRO E HOMENAGEM
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