O que Filipe Luís NÃO disse na nota: contradições e lacunas no caso Vini Jr

O que Filipe Luís NÃO disse na nota: contradições e lacunas no caso Vini Jr
Foto: Gilvan de Souza/Flamengo

Na tarde seguinte à coletiva concedida após a partida contra o Lanús, o técnico do Flamengo, Filipe Luís, divulgou um posicionamento oficial por meio da assessoria de comunicação do clube. A nota, enviada à imprensa e não publicada nas redes sociais do treinador nem do Fla, buscou responder à repercussão de declarações dadas sobre mais um episódio de racismo sofrido por Vinícius Júnior. O texto reafirma que o racismo é crime e declara apoio ao atacante, mas evita pedido explícito de desculpas e não enfrenta diretamente as falas mais criticadas.


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A controvérsia nasceu nas falas ditas antes da partida e na coletiva após o jogo. Questionado por um jornalista argentino sobre como o Flamengo havia sido recebido em visitas recentes ao país, em meio à citação de um novo caso envolvendo Vinícius na Europa, Filipe respondeu a partir de experiências pessoais. Disse que sempre foi bem tratado na Argentina e que não poderia generalizar.

O problema não esteve apenas no conteúdo, mas na construção. Ao deslocar a resposta para o campo individual, ignorou episódios recentes envolvendo a própria delegação rubro-negra na Argentina.

O que ficou de fora

Em 2025, em partidas contra Racing e Estudiantes pela Libertadores, houve registros de ofensas racistas dirigidas a integrantes da delegação do Flamengo. Em um dos casos, Danilo denunciou insultos vindo de torcedores. Não foram episódios hipotéticos nem distantes no tempo.

Ao afirmar que foi “muito bem recebido”, o treinador escolheu a lente pessoal para responder a uma pergunta que tratava de um fenômeno coletivo e estrutural. A crítica que emergiu não foi fruto de má interpretação difusa. Ela decorre da própria formulação.

Na nota posterior, Filipe reconhece que sua fala “pode ter aberto margem para interpretações distintas”. O trecho soa protocolar. Não há admissão clara de erro, tampouco a palavra desculpa. O argumento central é o de que não houve intenção de relativizar. A ausência de intenção, contudo, não elimina o efeito.

A expressão “palavra de um contra o outro”

Outro ponto sensível não aparece enfrentado com precisão no comunicado. Em sua fala inicial, o técnico mencionou que, em determinadas situações, trata-se da “palavra de um contra o outro”. A frase, ainda que juridicamente comum, carrega peso simbólico quando aplicada a casos de racismo. No debate público contemporâneo, a orientação predominante é considerar a palavra da vítima como ponto de partida, especialmente em contextos históricos de descrédito.

Além disso, o episódio citado envolvendo Vinícius não se resumiu a um relato isolado. O atacante do Real Madrid tem acumulado denúncias na Espanha, com imagens, relatórios e manifestações públicas de apoio, inclusive de atletas como Mbappé, que se posicionaram de forma contundente.

Na nota, Filipe afirma que classificou como covarde a atitude do jogador que teria tentado ocultar insultos ao tapar a boca. Reitera que jamais colocaria em dúvida a palavra da vítima. Ainda assim, o texto não revisita nem contextualiza a declaração anterior sobre a dualidade de versões.

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Forma e responsabilidade institucional

A escolha do formato também gerou questionamentos. O posicionamento foi encaminhado à imprensa, mas não ganhou destaque nas redes oficiais. Em tempos de comunicação direta, a ausência de um pronunciamento em vídeo ou publicação nos canais próprios do treinador e do clube foi interpretada por parte da torcida como tentativa de conter danos sem ampliar o alcance do debate.

Há um componente institucional que não pode ser ignorado. O Flamengo aprovou recentemente, por unanimidade em seu Conselho Deliberativo, uma emenda voltada ao enfrentamento de atos racistas, inclusive praticados por funcionários. A direção tem buscado associar a marca do clube a uma postura antirracista ativa. Quando o técnico da equipe principal se envolve em polêmica dessa natureza, o impacto ultrapassa a esfera individual.

Filipe Luís é também ídolo do Atlético de Madrid, clube cuja torcida protagonizou episódios reiterados de hostilidade contra Vinícius na Espanha. Embora não haja evidência de motivação deliberada, o contexto adiciona camadas à leitura pública.

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Entre a correção e a insuficiência

É legítimo reconhecer que o treinador se manifestou e reafirmou repúdio ao racismo. O silêncio teria sido ainda mais danoso. Porém, ao optar por um texto que não aborda frontalmente as expressões mais problemáticas e que evita um pedido direto de desculpas, a nota transmite sensação de correção parcial.

Em temas sensíveis, a comunicação exige precisão e responsabilidade. Quando a palavra sai desalinhada com o momento histórico, a retratação precisa ser igualmente clara. O caso evidencia como declarações dadas sob pressão, especialmente em coletivas pós-jogo, podem ganhar dimensão internacional e afetar a imagem de um clube que se pretende protagonista também fora das quatro linhas.

Em fala problemática sobre Vini Jr., Filipe esqueceu casos de racismo contra o Flamengo na Argentina

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