1 anos! Derrubando ponto a ponto a matéria de Danilo Lavieri sobre a assinatura de Landim na Libra

Um ano depois da publicação da reportagem de Danilo Lavieri sobre a assinatura de Rodolfo Landim em um documento da Libra, a disputa em torno dos direitos de transmissão permite revisitar o episódio com uma informação que não existia quando o texto foi publicado: Flamengo e Libra chegaram a um acordo em maio de 2026 para encerrar a briga sobre a divisão da receita de audiência. O entendimento colocou fim à disputa que havia levado o clube à Justiça e envolvido R$ 77 milhões em repasses bloqueados, mas também ajuda a separar duas questões que foram tratadas como se fossem uma só desde outubro de 2025: Landim realmente assinou o documento, mas isso não encerra a discussão sobre o que, exatamente, estava definido naquele momento.
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É justamente nessa diferença que está o centro da crítica à reportagem publicada por Lavieri no UOL em 6 de outubro de 2025. O título afirmava: “Com sim de Landim, Libra foi unânime em critério de TV; veja assinatura”. No texto, o jornalista sustentava que o então presidente do Flamengo havia concordado com todos os critérios de audiência definidos pela Libra em setembro de 2024 e que a nova gestão, já sob Luiz Eduardo Baptista, o Bap, tentava modificar aquilo que havia sido acordado.
A assinatura, porém, nunca foi o verdadeiro ponto de controvérsia. O próprio Flamengo reconheceu que Landim assinou. O problema estava no passo seguinte: o documento apresentado como prova de que havia uma definição completa do rateio precisava ser analisado em seu conteúdo integral, principalmente no que dizia respeito à divisão dos 30% destinados à audiência.
O documento e a tabela que mudam a interpretação
A Libra trabalha com uma divisão tripartite da remuneração fixa dos direitos de transmissão: 40% de maneira igualitária, 30% conforme desempenho esportivo e outros 30% vinculados à audiência. A premissa da audiência aprovada em setembro de 2024 previa que cada clube teria sua participação calculada a partir da audiência de seus jogos, considerando mandos e diferentes plataformas. Essa premissa foi aprovada enquanto Landim ainda era presidente do Flamengo.
O ponto levantado posteriormente pelo Flamengo é outro. Segundo o clube, não havia no documento uma definição dos percentuais correspondentes a cada plataforma, como televisão aberta, televisão fechada e pay-per-view. Em outubro de 2025, a própria diretoria rubro-negra respondeu o questionamento dizendo que o texto não explicitava o preço atribuído a cada plataforma e, por isso, não fornecia os dados necessários para calcular os percentuais de rateio.
Essa distinção é fundamental. Uma coisa é aprovar a premissa de que 30% da remuneração será distribuída por audiência. Outra, bem diferente, é estabelecer de maneira operacional quanto daquela parcela corresponde a cada plataforma e como o dinheiro será efetivamente repartido entre os clubes.
Foi justamente essa lacuna que alimentou a disputa posterior. Em outubro de 2025, o Flamengo afirmava publicamente que não havia documento comprovando a definição dos percentuais de audiência. A Libra sustentava a posição contrária: para a entidade, a regra já estava prevista no Estatuto, havia sido aprovada por unanimidade e era suficiente para orientar os pagamentos.
A primeira afirmação de Lavieri e a mudança de discurso
É aqui que aparece uma das contradições apontadas na crítica à reportagem. Na publicação de 6 de outubro de 2025, Lavieri apresentou a assinatura de Landim como evidência de que o ex-presidente havia concordado com “todos os critérios de audiência” definidos pela Libra.
Meses depois, ao ser questionado sobre o assunto, o próprio jornalista passou a reconhecer que os critérios eram confusos. A mudança é relevante porque modifica a natureza da discussão. Se os critérios eram efetivamente confusos, como afirmou posteriormente, a existência da assinatura não poderia, sozinha, ser utilizada como prova de que todos os parâmetros do rateio estavam definitivamente estabelecidos.
A crítica feita ao trabalho de Lavieri, portanto, não é de que Landim não assinou. Isso seria facilmente desmentido pelo próprio documento. O questionamento é sobre a conclusão extraída daquela assinatura e sobre a forma como o material foi apresentado ao público.
Na reportagem original, Lavieri afirmou que Landim concordara com todos os critérios e que, posteriormente, a gestão Bap tentou mudar aquilo que estava acordado. O Flamengo passou a sustentar que não pretendia simplesmente alterar uma regra já completa, mas complementar aquilo que considerava insuficiente para que o cálculo pudesse ser realizado. A diferença semântica entre “mudar” e “complementar” se transformou, na prática, no centro político e jurídico da disputa.
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O que aconteceu depois da chegada de Bap
Bap assumiu a presidência do Flamengo em janeiro de 2025 e passou a questionar a maneira como a receita de audiência seria distribuída. O clube entendia que havia uma lacuna no critério e tentou discutir alternativas com os demais integrantes da Libra.
As negociações produziram diferentes cenários para o pagamento. Chegaram a ser desenhadas seis possibilidades ao longo do processo, sem que Flamengo e os demais clubes conseguissem chegar a um consenso. Mesmo assim, em julho de 2025 houve pagamento aos clubes baseado no primeiro cenário proposto pela Libra.
É nesse ponto que a narrativa de que Bap simplesmente queria “passar por cima” do que Landim havia assinado encontra uma dificuldade. O debate não surgiu porque o novo presidente negou a assinatura do antecessor. Surgiu porque a nova administração entendia que o documento não resolvia todos os elementos necessários para calcular a distribuição.
Em setembro de 2025, o Flamengo conseguiu uma liminar no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro que bloqueou R$ 77 milhões relativos aos repasses da Libra. O clube argumentava que seu poder de veto não havia sido respeitado e que os critérios utilizados para a divisão não haviam sido aprovados da maneira prevista no Estatuto.
A Libra, naturalmente, apresentou outra interpretação. Para a entidade, o Estatuto era suficiente e havia sido aprovado por unanimidade, inclusive pelo Flamengo. O conflito deixou de ser apenas uma discussão entre dirigentes e passou a envolver documentos, assembleias, pagamentos e decisões judiciais.
A Justiça e o acordo que encerrou a disputa
Outro ponto importante para avaliar o episódio é o desfecho. A discussão não terminou com uma decisão judicial definitiva declarando que a versão de uma das partes estava integralmente correta.
Em maio de 2026, Flamengo e Libra anunciaram um acordo para encerrar a divergência sobre a distribuição dos valores de audiência. A própria Libra classificou a solução como um “ponto de equilíbrio” entre o que a nova diretoria rubro-negra defendia desde janeiro de 2025 e o modelo desejado por parte dos clubes.
O acordo envolveu justamente os 30% da remuneração fixa destinada à audiência no contrato com a Globo, válido até 2029. Ou seja, depois de meses de disputa, negociação e judicialização, as partes não simplesmente reafirmaram que a regra original estava perfeitamente definida e encerraram o assunto. Foi necessário construir uma solução para pôr fim ao conflito.
Isso não significa que a Libra estivesse errada em afirmar que Landim assinou. A assinatura existia. Também não significa que todas as alegações feitas pelo Flamengo tenham sido acolhidas integralmente pela Justiça. O acordo foi, por definição, uma composição entre posições diferentes.
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O problema da manchete
É justamente por isso que a manchete de outubro de 2025 merece ser revisitada. Dizer que Landim assinou o documento é um fato. Dizer que havia uma assinatura no material também é fato. O salto discutível está em transformar essa assinatura na prova definitiva de que todos os critérios de rateio estavam plenamente estabelecidos e que qualquer tentativa posterior de discutir a fórmula representaria uma mudança de algo já completamente acordado.
A própria evolução dos acontecimentos mostrou uma situação mais complexa. A Libra defendia que o critério existia e era aplicável. O Flamengo sustentava que havia uma fórmula incompleta que precisava ser complementada. Fontes independentes registraram as duas versões. O próprio UOL publicou, no dia seguinte à reportagem de Lavieri, uma análise destacando que a questão central não era a existência da assinatura, mas a viabilidade prática do critério estabelecido para os 30% de audiência.
Há, portanto, uma diferença importante entre contestar a autenticidade de um documento e contestar a interpretação dada a ele. O Flamengo nunca precisou negar a assinatura de Landim para defender sua posição. O argumento era outro: a assinatura dizia respeito às premissas do modelo, enquanto os detalhes necessários para transformar aquelas premissas em um cálculo efetivo ainda precisavam ser definidos.
Um ano depois, essa distinção continua sendo o ponto mais importante para compreender o caso. A matéria de Lavieri apresentou a assinatura como elemento central para sustentar que a Libra havia chegado a um critério de TV por unanimidade. A defesa do Flamengo passou a mostrar que a discussão estava justamente no que faltava depois da assinatura.
E existe ainda um detalhe que não pode ser ignorado: a história terminou em acordo. Em maio de 2026, Flamengo e Libra encontraram uma solução negociada para a disputa sobre os 30% de audiência. Houve negociação para encerrar um conflito que começou justamente pela interpretação sobre aquilo que estava, ou não, suficientemente definido.
Por isso, a crítica à reportagem não precisa negar a assinatura de Landim. Pelo contrário. É possível reconhecer que ela existiu e, ao mesmo tempo, questionar o uso que foi feito dela. O ponto não é se Landim assinou. O ponto é o que aquela assinatura efetivamente aprovava. E, quando se coloca o documento completo, as manifestações do próprio Flamengo, a disputa judicial e o acordo posterior na mesma linha do tempo, a história fica bem mais complexa do que a simples narrativa de que um presidente assinou tudo e o sucessor tentou voltar atrás. E olha que nem falamos sobre o documentado cortado que foi publicado na matéria e permanece até hoje.
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