Bandeira revela os bastidores da reconstrução do Flamengo: “Era muito pior”

Bandeira revela os bastidores da reconstrução do Flamengo: “Era muito pior”

Eduardo Bandeira de Mello voltou a falar sobre os primeiros meses de sua passagem pela presidência do Flamengo e relembrou o cenário financeiro encontrado no fim de 2012, os bastidores que o levaram inesperadamente à candidatura e as escolhas que marcaram os seis anos em que esteve à frente do clube. Em conversa no podcast Terraflamistas, o ex-presidente afirmou que a situação encontrada na Gávea era ainda mais grave do que o grupo responsável pela Chapa Azul imaginava e destacou que o trabalho de reconstrução precisava ir além das contas.


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Bandeira chegou à eleição de 2012 em uma circunstância incomum. Até então, não havia ocupado cargo de vice-presidente, diretor de futebol ou função semelhante no clube. A candidatura surgiu depois que Wallim Vasconcellos e Rodolfo Landim tiveram seus nomes impugnados por não cumprirem o requisito estatutário de cinco anos de vida associativa ininterrupta. Bandeira, que fazia parte do grupo, assumiu a cabeça da chapa e foi confirmado como candidato em novembro. Em 3 de dezembro, venceu Patrícia Amorim e Jorge Rodrigues com 1.414 votos.

Na entrevista, ele conta que a presidência jamais esteve entre seus planos. Associado ao Flamengo desde 1978, Bandeira se descreveu como alguém que acompanhava o clube como torcedor e que estava próximo da aposentadoria depois de décadas no BNDES. A mudança de rota aconteceu rapidamente. “O Flamengo é a coisa mais importante da minha vida, depois da minha família, e o chamado da Nação não se recusa”, afirmou ao recordar o momento em que aceitou assumir a candidatura.

O impacto da chegada à Gávea, porém, foi maior do que o grupo esperava. Bandeira conta que havia consciência de uma situação financeira delicada, mas que os números encontrados posteriormente mostraram uma realidade muito mais grave. A nova administração contratou a Ernst & Young para realizar uma auditoria, e o diagnóstico divulgado em abril de 2013 apontou R$ 750,7 milhões em endividamento, valor cerca de 300% superior ao inicialmente estimado.

O ex-presidente também recordou a dificuldade de trabalhar com os balanços existentes. Segundo ele, a situação era tão confusa que o primeiro relatório de auditoria trazia ressalvas sobre a confiabilidade das informações disponíveis. O problema, portanto, não era apenas encontrar dinheiro para pagar as contas, mas reconstruir uma estrutura administrativa capaz de saber exatamente quanto o Flamengo devia, a quem devia e quais compromissos precisavam ser tratados primeiro.

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Foi nesse contexto que Bandeira passou a defender uma ideia que, segundo ele, era tão importante quanto a redução do endividamento: recuperar a credibilidade do clube. “Mais do que o passivo financeiro, nós tínhamos que resgatar o passivo ético e moral”, afirmou. A declaração resume uma das marcas do discurso adotado pela gestão, que buscava associar a recuperação das contas à mudança de comportamento diante de funcionários, atletas, fornecedores e credores.

Um dos exemplos mais emblemáticos citados na conversa é o Ato Trabalhista. Quando a nova administração assumiu, o Flamengo acumulava mais de 600 ações na Justiça do Trabalho. O mecanismo fazia com que parte das receitas do clube fosse direcionada ao pagamento dos credores. Ao longo dos anos seguintes, a quantidade de processos caiu de maneira acentuada, até a saída do clube do programa em 2017. Na ocasião, o próprio clube informou ter quitado mais de 650 ações e pago aproximadamente R$ 130 milhões em dívidas.

A lembrança de Bandeira ganha um tom bem-humorado quando ele conta que, depois de anos na posição de devedor, o Flamengo chegou ao ponto de cobrar valores que permaneciam retidos no mecanismo judicial. “Agora quem tá devendo são vocês. Por favor, dá meu dinheiro aqui”, recordou, ao narrar a conversa com a Justiça do Trabalho. A frase funciona como síntese de uma transformação administrativa que, independentemente das avaliações sobre o desempenho esportivo da gestão, pode ser medida por números concretos.

A austeridade também atingiu o futebol. Um dos episódios mais simbólicos ocorreu logo no início de 2013, com a saída de Vágner Love. O atacante havia retornado ao Flamengo no ano anterior, mas o clube ainda tinha parcelas da negociação com o CSKA. Sem condições de honrar os compromissos, o Rubro-Negro aceitou o retorno do jogador à Rússia. Na época, a dívida restante com o clube russo era de € 6 milhões, além de pendências com o próprio atleta.

A necessidade de priorizar os compromissos financeiros também mudou o destino do dinheiro que começaria a entrar com a Adidas. A parceria, negociada ainda na gestão Patrícia Amorim e aprovada pelo Conselho Deliberativo em dezembro de 2012, previa dez anos de contrato e R$ 38 milhões em luvas.

Bandeira conta que imaginava utilizar parte daqueles recursos para fortalecer o elenco, até conhecer a dimensão das pendências fiscais. Depois de uma reunião com representantes da Fazenda Nacional, segundo seu relato, a orientação foi outra: o dinheiro deveria ser direcionado para atacar as dívidas. “Esse dinheiro não vai nem esquentar no caixa do Flamengo”, afirmou. Pouco depois, parte da primeira parcela das luvas foi bloqueada judicialmente e a nova administração também realizou pagamentos de impostos atrasados para evitar novas penhoras.

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A reconstrução, portanto, foi acompanhada de decisões que dificilmente seriam populares no curto prazo. O episódio de Vágner Love é um exemplo. A pressão por contratações continuou durante os primeiros anos, especialmente em períodos de desempenho esportivo ruim. Na entrevista, Bandeira relembra justamente a temporada de 2014, quando o Flamengo chegou ao intervalo da Copa do Mundo em situação desconfortável no Campeonato Brasileiro, e a resistência às cobranças para abandonar o planejamento financeiro.

Esse é um dos pontos que ainda provocam interpretações diferentes sobre a passagem do dirigente. A gestão conseguiu reduzir o endividamento e reorganizar obrigações, mas passou por momentos em que a política de austeridade foi questionada pela própria torcida. O debate sobre aquele período permanece porque o Flamengo precisou conviver durante algum tempo com uma escolha difícil: gastar mais para tentar acelerar o resultado esportivo ou manter o plano de recuperação para criar condições mais sustentáveis no futuro.

Bandeira, hoje, diz não ter intenção de disputar novamente a presidência. Durante a conversa, afirmou que sua principal vocação atualmente é a de torcedor de arquibancada e defendeu a alternância de poder. Também rejeitou a ideia de que um dirigente deva se transformar em “salvador da pátria” ou permanecer indefinidamente no centro da política do clube. Depois de seis anos no cargo, prefere acompanhar os jogos no Leste Superior do Maracanã e se colocar à disposição de uma eventual administração caso exista afinidade e possibilidade de contribuir.

A posição ajuda a explicar a maneira como Bandeira pretende enquadrar o próprio legado. Em vez de reivindicar retorno ao comando, ele apresenta a passagem pela presidência como uma missão já cumprida. A discussão sobre os títulos conquistados, as escolhas no futebol e os erros administrativos continuará aberta entre os torcedores, mas existe um aspecto da gestão que não depende apenas de memória ou opinião: quando assumiu, o Flamengo tinha uma dívida auditada de R$ 750,7 milhões, mais de 600 ações trabalhistas e receitas comprometidas por penhoras.

É desse ponto de partida que precisa ser analisada a reconstrução conduzida entre 2013 e 2018. Bandeira não apresenta aquela história como obra individual. Ao contrário, repete que teve ao lado dele uma equipe de dirigentes e profissionais responsável pelas decisões. A sua versão dos acontecimentos, entretanto, reforça a dimensão do problema enfrentado no início da década passada e ajuda a explicar por que a mudança de rota financeira se tornou uma das principais marcas daquele período do Flamengo.

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