A entrevista da Brabo TV com o pesquisador Paulo Tinoco, autor do livro “Flamengo, o Fenômeno Nacional”, transformou o pré-jogo rubro-negro em uma verdadeira imersão histórica sobre identidade popular, cultura brasileira e construção simbólica do Flamengo ao longo do século XX. Ao lado de Rafael Penido, Tulio Rodrigues e Cristiano Oliveira, Tinoco detalhou bastidores de mais de quatro décadas de pesquisa que culminaram na obra atualmente em pré-venda até o dia 31 de maio, disponível no site da Flamusica.
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Logo nos primeiros minutos da conversa, Penido apresentou o livro como uma “enciclopédia do Flamengo”, destacando o nível de profundidade da pesquisa desenvolvida por Tinoco. O volume inicial cobre o período entre 1895 e 1960, reunindo informações históricas, registros culturais, personagens esquecidos e a relação do clube com música, rádio, teatro, cinema e política nacional.
A entrevista rapidamente deixou de ser apenas uma divulgação editorial. O debate caminhou para um entendimento mais amplo sobre como o Flamengo ultrapassou os limites do futebol e passou a ocupar espaço definitivo no imaginário brasileiro. Tinoco sustentou que a popularização rubro-negra não nasceu de um suposto favorecimento midiático, tese frequentemente repetida por adversários do clube, mas de uma soma de fatores históricos, culturais e esportivos que começaram a se consolidar ainda nos anos 1930.
Da infância em Macaé à construção de um acervo histórico
Paulo Tinoco explicou que a relação com o Flamengo começou ainda na infância, acompanhando partidas pelo rádio em Macaé, cidade onde viveu durante toda a juventude. O pesquisador relembrou o impacto emocional dos títulos da geração de Zico e contou que o hábito de colecionar materiais ligados ao clube nasceu justamente naquele período.
Livros, revistas, fitas VHS, jornais, discos e registros históricos passaram a integrar um acervo pessoal que cresceu durante décadas. Uma das principais viradas da pesquisa ocorreu após Tinoco assistir repetidamente ao filme “Flamengo Paixão”, lançado em 1980. Segundo ele, a trilha sonora do documentário despertou um interesse específico pela relação entre música e Flamengo.
O que inicialmente era apenas coleção se transformou em investigação sistemática. No início dos anos 2000, Tinoco já possuía cerca de 150 músicas relacionadas ao clube catalogadas. Atualmente, o número ultrapassa 1.650 registros entre gravações, regravações, partituras e discos históricos.
A partir de 2012, o pesquisador intensificou o trabalho em instituições de preservação de memória, como Biblioteca Nacional, Museu da Imagem e do Som e Instituto Moreira Salles. Também percorreu sebos, feiras de antiguidades e acervos particulares em busca de documentos raros. Foi nesse processo que percebeu uma lacuna importante na historiografia rubro-negra.
Segundo Tinoco, diversos aspectos fundamentais da construção cultural do Flamengo simplesmente não apareciam nos livros tradicionais sobre o clube. A descoberta abriu caminho para um trabalho mais amplo, envolvendo teatro, cinema, carnaval, rádio e manifestações populares ligadas ao Flamengo desde as primeiras décadas do século passado.
O Flamengo antes do futebol dominante
Um dos pontos mais interessantes da entrevista foi justamente a desconstrução de algumas narrativas cristalizadas sobre o clube. Tinoco rejeitou a ideia de que o Flamengo nasceu poderoso ou ligado às elites econômicas do Rio de Janeiro. Embora reconheça que os fundadores não eram operários, o pesquisador lembrou que o clube passou décadas enfrentando dificuldades estruturais antes de conquistar projeção nacional.
O autor destacou que o Flamengo só conquistou o primeiro título carioca de remo em 1916 e demorou para consolidar patrimônio, sedes e estrutura esportiva. Segundo ele, a mudança de patamar acontece principalmente a partir dos anos 1930, quando o clube consegue se conectar ao crescimento dos meios de comunicação de massa e ao próprio processo de formação da identidade nacional brasileira durante a Era Vargas.
Foi nesse período que o Flamengo passou a ocupar um espaço estratégico no imaginário popular. Tinoco resumiu esse processo em uma frase que chamou atenção dos entrevistadores: “O Flamengo se posicionou primeiro e melhor na identidade nacional e na vida brasileira”.
A análise do pesquisador aponta para um conjunto de fatores simultâneos. O surgimento da Rádio Nacional, o fortalecimento do rádio esportivo, as campanhas populares promovidas pelo presidente José Bastos Padilha, a contratação de grandes ídolos como Leônidas da Silva, Domingos da Guia e Fausto, além da presença constante do Flamengo na música e no entretenimento ajudaram a ampliar o alcance simbólico do clube.
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O rádio, a música e o Flamengo no inconsciente popular
Tinoco dedicou parte importante da entrevista para explicar como a música ajudou a transformar o Flamengo em fenômeno cultural. Segundo ele, o clube percebeu cedo a força da comunicação popular.
O pesquisador relembrou que o hino rubro-negro de Paulo Magalhães foi gravado em 1937, muito antes dos rivais conseguirem registrar oficialmente suas canções. Depois, nos anos 1940, o hino de Lamartine Babo passou a tocar constantemente nas rádios brasileiras. Enquanto outros clubes ainda não tinham músicas gravadas, o Flamengo já ocupava espaço permanente na programação radiofônica nacional.
Na visão de Tinoco, isso colocou o Flamengo “no inconsciente popular”. Crianças ouviam músicas sobre o clube, artistas famosos declaravam torcida rubro-negra e a relação afetiva se espalhava naturalmente pelo país. Orlando Silva, Ângela Maria, Carmen Miranda, Jackson do Pandeiro e diversos outros nomes da cultura brasileira aparecem ligados ao Fla ao longo da pesquisa.
A entrevista revelou ainda episódios curiosos. Tinoco contou que Carmen Miranda se aproximou do Flamengo após se relacionar com Mário Cunha, filho do fundador José Agostinho Pereira da Cunha. Também afirmou ter encontrado registros que apontam Noel Rosa como rubro-negro, contrariando versões históricas que associavam o compositor ao Vasco ou até mesmo à ausência de interesse por futebol.
Outro momento simbólico citado pelo pesquisador envolve a gravação de músicas em Esperanto após o tricampeonato estadual de 1979. O episódio ilustra a dimensão cultural alcançada pelo clube ao longo das décadas. Tinoco revelou possuir inclusive o disco original em seu acervo.
O preconceito social e a construção da identidade popular
A entrevista também abordou um tema recorrente na história rubro-negra: o preconceito social enfrentado pelo Flamengo conforme sua torcida se popularizava.
Tinoco explicou que, no fim dos anos 1930, com a transferência para a Gávea e o crescimento da favela da Praia do Pinto ao redor da sede social, começaram a surgir provocações associando o Flamengo às classes populares, à população negra e às periferias cariocas. Expressões pejorativas usadas por rivais, como “mulambo” e “favelado”, nasceram justamente nesse contexto histórico.
O pesquisador lembrou inclusive músicas de torcidas adversárias dos anos 1950 que ironizavam o Flamengo chamando o clube de “time de urubu”. O símbolo que hoje representa orgulho para a torcida surgiu inicialmente como tentativa de ofensa.
Outro episódio resgatado foi o famoso concurso de torcidas realizado em 1936 pelo Jornal dos Sports, durante a decisão entre Flamengo e Fluminense. A torcida rubro-negra venceu a competição após promover festas, desfiles, fantasias, instrumentos musicais e até ações performáticas no estádio das Laranjeiras. Na ocasião, adversários apelidaram os flamenguistas de “torcida do Dragão”, referência a uma loja popular de utensílios domésticos, numa tentativa de associar o clube às classes mais pobres.
Para Tinoco, todos esses episódios ajudam a demonstrar como o Flamengo se consolidou justamente por sua capacidade de representar diferentes camadas sociais do país.
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José Agostinho e os personagens esquecidos da história rubro-negra
Um dos trechos mais emocionantes da entrevista aconteceu quando Paulo Tinoco falou sobre os fundadores do Flamengo, especialmente José Agostinho Pereira da Cunha. O pesquisador demonstrou profunda admiração pelo dirigente e afirmou que, caso o clube construa um estádio próprio no futuro, o nome ideal para a arena deveria homenagear justamente José Agostinho.
Segundo Tinoco, o fundador permaneceu ligado ao Flamengo desde 1895 até sua morte nos anos 1940, atravessando os períodos mais difíceis da história do clube. O pesquisador revelou ter visitado o túmulo de José Agostinho no Cemitério São João Batista e conversado com descendentes do dirigente para aprofundar a pesquisa.
A entrevista também recuperou nomes como Nestor de Barros, Mário Espínola e Carlos Sardinha, personagens fundamentais na criação do Flamengo, mas pouco lembrados pelas gerações atuais.
Ao explicar a importância desses dirigentes, Tinoco reforçou que o clube não pode ser compreendido apenas pelos resultados esportivos recentes. Para ele, o Flamengo é consequência de 130 anos de construção coletiva, marcada pelo trabalho de pessoas que ajudaram a transformar um clube de regatas em símbolo nacional.
No fim da entrevista, a sensação transmitida era clara: Paulo Tinoco não escreveu apenas um livro sobre futebol. O pesquisador parece ter produzido uma espécie de arqueologia cultural do Flamengo, conectando música, rádio, política, carnaval e memória popular em uma narrativa que ajuda a entender por que o clube ultrapassou há muito tempo os limites do esporte.
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