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Cinefoot homenageia Arthur Muhlenberg com sessão especial de Onde Estiver, Estarei e O rubro-negrismo racional

Cinefoot homenageia Arthur Muhlenberg com sessão especial de Onde Estiver, Estarei e O rubro-negrismo racional

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O Cinefoot realizará no dia 10 de agosto, às 19h, no Estação Claro Rio, em Botafogo, uma sessão especial dedicada à memória, à paixão e à cultura rubro-negra, com exibição de dois filmes ligados diretamente a Arthur Muhlenberg. A noite terá ingressos limitados, em uma sala de 70 lugares, e reunirá obras que tratam o Flamengo não apenas como clube de futebol, mas como linguagem, pertencimento, deslocamento, fé cotidiana e forma de enxergar o mundo. Em um dos filmes, Arthur aparece como roteirista; no outro, conduz a narrativa como voz de um pensamento que ele ajudou a organizar durante décadas: a ideia de que ser Flamengo é uma experiência que ultrapassa o jogo.


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A sessão chega em um momento de saudade recente. Arthur Muhlenberg morreu em abril de 2026, aos 62 anos, deixando uma lacuna profunda entre torcedores que aprenderam a ler, ouvir e discutir Flamengo por meio de sua crônica. Ele foi publicitário, cronista, personagem de arquibancada, provocador profissional dos lugares-comuns e uma das vozes mais reconhecíveis da torcida rubro-negra na internet brasileira. Para muita gente, Arthur não apenas escrevia sobre o clube. Ele ajudava a dar vocabulário ao sentimento de milhões de pessoas que já sabiam o que sentiam, mas encontravam nele uma maneira mais inteligente, irônica e afetiva de dizer.

O convite para a sessão tem, por isso, um sentido duplo. É uma homenagem ao amigo ausente e, ao mesmo tempo, uma celebração da obra que ele deixou em torno do clube. Em “Onde Estiver, Estarei”, Arthur assina o roteiro de uma narrativa que coloca a torcida no centro da cena. Já em “O rubro-negrismo racional de Arthur Muhlenberg”, ele é a própria voz que conduz o espectador por uma espécie de teologia flamenga, expressão que combina humor, exagero consciente e uma tentativa de explicar racionalmente aquilo que, para os rubro-negros, muitas vezes parece anterior à razão.

A torcida como protagonista da história

Onde Estiver, Estarei — Uma Paixão Rubro-Negra” ganhou projeção por contar a saga de torcedores que acompanharam duas conquistas continentais separadas por quase quatro décadas. A obra se concentra em Francisco Moraes e Claudio Cruz, rubro-negros que estiveram presentes nas campanhas da Libertadores de 1981 e de 2019, costurando duas épocas que mudaram o tamanho do Flamengo no continente. A produção foge do caminho mais previsível dos documentários esportivos, geralmente centrados em jogadores, treinadores e bastidores de vestiário, para colocar a arquibancada como personagem principal.

Essa escolha é decisiva porque 1981 e 2019 não são apenas datas de títulos. São marcos de identidade. Em 1981, o Flamengo de Zico venceu a Libertadores em uma campanha que atravessou batalhas, viagem, tensão política, violência em campo e afirmação continental. Em 2019, o clube reencontrou a América em Lima, diante do River Plate, depois de 38 anos de espera. Entre uma conquista e outra, houve frustrações, eliminações, promessas quebradas, campanhas mal explicadas e um torcedor que continuou atravessando fronteiras mesmo quando o time não correspondia à devoção.

Francisco Moraes e Claudio Cruz representam esse tipo de fidelidade que não cabe em campanha publicitária. Eles não são torcedores porque estavam presentes na hora da volta olímpica. Estavam lá porque fizeram do Flamengo um compromisso de vida antes que o resultado justificasse qualquer sacrifício. O documentário acompanha justamente essa epopéia rubro-negra, das viagens para ver o clube campeão continental em 1981 ao reencontro em 2019, quando Lima virou ponto de chegada para uma geração inteira que cresceu ouvindo falar da América como promessa, trauma e destino.

Arthur e a teologia flamenga

A presença de Arthur Muhlenberg nos dois filmes dá unidade emocional à sessão. Em “Onde Estiver, Estarei”, ele ajudou a construir a narrativa como roteirista. Em “O rubro-negrismo racional de Arthur Muhlenberg”, aparece como guia de um pensamento que sempre tratou o Flamengo com a seriedade dos que sabem rir de si mesmos. Essa talvez seja uma das marcas mais importantes de sua obra: Arthur entendia que o rubro-negrismo podia ser brincadeira, provocação, liturgia, memória e análise ao mesmo tempo, sem precisar pedir desculpas por sua intensidade.

Essa mistura explica por que sua morte provocou comoção tão grande. Arthur não era apenas um comentarista de resultados. Era um cronista de pertencimento. Seu texto vinha da arquibancada, mas não se limitava ao impulso do momento. Ele sabia transformar derrota em ironia, vitória em afirmação cultural e rivalidade em peça de teatro popular. Em um ambiente esportivo cada vez mais dominado por gritaria, cortes apressados e indignação fabricada, sua voz lembrava que clubismo também pode ter inteligência, repertório e estilo.

A sessão no Cinefoot ganha força justamente por recuperar esse lugar. O cinema permite que a memória respire em outro tempo, sem a pressa da rede social e sem a violência do debate instantâneo. Ver Arthur na tela, ouvir sua condução e reencontrar seu olhar sobre o Flamengo é também confrontar a ausência. A homenagem não tenta substituir o que se perdeu, porque isso seria impossível. Ela organiza a saudade em torno daquilo que ele mais ajudou a preservar: a certeza de que o Flamengo é mais compreendido quando contado por quem viveu a experiência por dentro.

Francisco, Claudio e a epopeia rubro-negra

A homenagem a Francisco Moraes e Claudio Cruz amplia o alcance da noite. Eles são chamados de baluartes da torcida não por acaso. A palavra pode parecer antiga, mas combina com personagens que sustentam uma ponte entre gerações. Os dois carregam no corpo e na memória a travessia de 1981 e 2019, títulos que moldaram a relação do Flamengo com a Libertadores. A presença deles no filme mostra que a história de um clube não pertence apenas aos que fizeram gols, levantaram taças ou assinaram contratos. Também pertence a quem viajou, sofreu, esperou, cantou e acreditou quando acreditar parecia teimosia.

Essa inversão de foco é rara e necessária. O futebol costuma tratar torcedor como cenário. Câmera aberta na festa, corte rápido no choro, imagem de arquibancada para dar emoção ao produto e, logo depois, retorno aos protagonistas tradicionais. “Onde Estiver, Estarei” muda a lógica ao dizer que a torcida não é fundo. É enredo. Sem ela, 1981 e 2019 continuam sendo títulos, mas perdem parte de sua dimensão humana. Com ela, viram jornada.

A sessão especial também ajuda a reposicionar o Flamengo dentro do cinema esportivo. Não se trata apenas de registrar conquistas, mas de discutir memória, deslocamento e identidade. A paixão rubro-negra atravessa ônibus, aviões, estádios, fronteiras e gerações. Quando Francisco e Claudio aparecem como protagonistas, eles representam milhões de pessoas que não estiveram em Santiago, Montevidéu ou Lima, mas que reconhecem naquela caminhada uma extensão da própria vida.

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Uma noite para ir de manto e coração preparado

O encontro marcado para 10 de agosto, no Estação Claro Rio, tem todos os elementos de uma sessão diferente. Não será apenas uma exibição para cumprir programação de festival. Será uma noite de reencontro, reverência e emoção coletiva. A sala pequena, com apenas 70 lugares, tende a tornar tudo mais próximo, quase como uma reunião de arquibancada em ambiente de cinema. O rubro-negro que for precisa entender que a experiência não será neutra. Arthur, Francisco e Claudio não são personagens distantes. Eles pertencem a uma tradição afetiva que muita gente carrega sem perceber.

Por isso, o aviso para se preparar física e psicologicamente não soa exagerado. O Flamengo, quando contado pela perspectiva da torcida, deixa de ser apenas clube vencedor e vira álbum de família, calendário sentimental e mapa de ausências. A morte de Arthur ainda é recente. A trajetória de Francisco e Claudio atravessa décadas. As imagens de 1981 e 2019 mexem com lembranças de pais, filhos, amigos, viagens, promessas e lugares ocupados diante da televisão ou dentro do estádio. O cinema, nesse caso, não apenas projeta uma história. Ele devolve ao torcedor um pedaço dele mesmo.

No fim, a sessão oferecida pelo Cinefoot é uma homenagem a três rubro-negros, mas também a uma forma de existir Flamengo. Arthur Muhlenberg deu palavras ao sentimento. Francisco Moraes e Claudio Cruz deram corpo à travessia. Os filmes, juntos, ajudam a provar que a grandeza de um clube não se mede somente por taças, receitas ou rankings. Mede-se também pela capacidade de produzir personagens que transformam torcida em cultura, memória em obra e paixão em permanência. No dia 10 de agosto, às 19h, em Botafogo, quem vestir o manto para ir ao cinema não estará apenas assistindo a uma sessão especial. Estará participando de um ritual rubro-negro.

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