E a isonomia? Pedrinho a a hipocrisia no clássico contra o Flamengo: Vasco muda tudo e órgãos se calam?

E a isonomia? Pedrinho a a hipocrisia no clássico contra o Flamengo: Vasco muda tudo e órgãos se calam?

O Vasco decidiu levar o clássico contra o Flamengo, marcado para a próxima quinta (29), para o estádio Nilton Santos e reservar 90% dos ingressos à sua torcida, deixando os 10% restantes para os rubro-negros. A escolha, tomada pelo clube presidido por Pedrinho, contrasta com o acordo de divisão igualitária aplicado no confronto do primeiro turno, disputado no Maracanã, e reacende o debate sobre isonomia no Campeonato Brasileiro. A controvérsia vai além do direito do mandante de escolher o estádio: envolve a coerência dos argumentos apresentados pelo Vasco e a diferença entre a preocupação demonstrada por autoridades públicas em situações recentes e a postura adotada agora.


Ouça nossas análises e entrevistas sobre a eleição do Flamengo no seu agregador de podcast preferido: Spotify, Deezer, Amazon, iTunes, Youtube Music, Castbox e Anchor.


O Vasco sustenta sua decisão na disputa jurídica envolvendo a utilização do Maracanã. O clube argumenta que o acordo que previa a realização do clássico no estádio não teria sido formalizado de maneira juridicamente válida pelo consórcio responsável, razão pela qual precisou recorrer à Justiça para garantir o mando de campo em outra partida. Essa posição, porém, não encerra o debate sobre a divisão dos ingressos nem elimina o questionamento sobre a coerência de um campeonato em que o clássico do primeiro turno teve as duas torcidas em condições iguais, enquanto o segundo será disputado com ampla maioria de vascaínos nas arquibancadas.

O direito de escolher o estádio não elimina a discussão sobre isonomia

A decisão do Vasco precisa ser analisada em duas frentes. A primeira é o direito de indicar o estádio dentro das regras aplicáveis ao mando de campo. Como o Nilton Santos e o Maracanã ficam na mesma cidade, a mudança de equipamento esportivo não representa, por si só, uma transferência da partida para outra praça. A segunda questão é a distribuição de ingressos e o impacto dessa escolha sobre o equilíbrio entre os clubes.

No primeiro turno, o clássico foi realizado com divisão de 50% das entradas para cada torcida. Agora, o Vasco optou por reservar 90% da carga aos seus torcedores. A alteração não significa automaticamente que exista uma infração regulamentar, mas cria uma diferença concreta nas condições de presença das torcidas ao longo dos dois confrontos. É nesse ponto que aparece a cobrança por isonomia: se o primeiro jogo foi organizado com divisão igualitária, a mudança no segundo turno merece explicação para além da simples condição de mandante.

Pedrinho pode defender que o Vasco tem direito de escolher onde jogar, desde que respeite as normas. Isso, contudo, não impede que a decisão seja questionada por seus efeitos e pelo contexto em que foi tomada. A leitura de que a mudança representa uma retaliação ao Flamengo circula no debate entre torcedores e comentaristas, especialmente diante das divergências entre os clubes sobre o gramado sintético do Nilton Santos. Não há, porém, comprovação pública suficiente para afirmar que essa foi a motivação pessoal do presidente vascaíno. O que pode ser avaliado objetivamente é a decisão e a diferença de tratamento entre os dois clássicos.

TRANSMISSÃO AO VIVO COMPLETA:

Segurança foi argumento central na disputa pelo Maracanã

A contradição mais relevante envolve a segurança. Na disputa anterior sobre o local da partida do Vasco contra o Boca Juniors, pela Copa Sul-Americana, o tema teve peso importante nas manifestações institucionais e na discussão judicial. O Ministério Público do Rio de Janeiro se pronunciou em diferentes momentos, inclusive encaminhando manifestação ao governo estadual, enquanto a discussão sobre o uso do Maracanã foi levada à Justiça. Naquele contexto, a preocupação com a segurança foi apresentada como razão para defender a realização do jogo no estádio.

Agora, o cenário é outro. O secretário de Polícia Militar do Rio de Janeiro, coronel Sylvio Guerra, manifestou preocupação à diretoria de competições da CBF com a realização do clássico entre Flamengo e Vasco no Nilton Santos e indicou preferência pelo Maracanã. A posição chama atenção porque parte de uma autoridade diretamente ligada à segurança pública e considera os riscos operacionais do confronto.

O Vasco, por sua vez, formalizou à CBF a preferência pelo Nilton Santos. Segundo as informações divulgadas sobre a organização do jogo, o Batalhão Especializado de Policiamento em Estádios (BEPE) não se opôs à escolha, e o Ministério Público também não apresentou objeção pública semelhante às manifestações observadas no episódio anterior. A Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro teria dado aval ao estádio indicado pelo clube depois que São Januário voltou a não ser recomendado para receber a partida.

Essa diferença de postura alimenta a crítica de incoerência institucional. Se a segurança foi considerada determinante em uma ocasião anterior, seria razoável esperar uma avaliação igualmente rigorosa agora, sobretudo porque Flamengo e Vasco protagonizam um clássico de grande mobilização e o Nilton Santos apresenta desafios logísticos próprios.

A logística do Nilton Santos exige atenção

O debate não se resume à quantidade de ingressos destinada a cada torcida. A localização do estádio, os deslocamentos, os acessos e a possibilidade de encontro entre grupos rivais precisam fazer parte do planejamento de segurança. O histórico de problemas logísticos envolvendo partidas no Nilton Santos, ainda que nem todos tenham ocorrido em confrontos entre Flamengo e Vasco, reforça a necessidade de prevenção.

A divisão de 90% para a torcida mandante não elimina esses desafios. Mesmo com uma presença menor de rubro-negros nas arquibancadas, os deslocamentos pela cidade e as áreas de circulação próximas ao estádio continuam exigindo coordenação entre clubes, forças de segurança e organizadores. A avaliação do risco precisa considerar o conjunto da operação, e não apenas a distribuição interna dos torcedores.

Também é importante evitar que a discussão seja transformada em disputa entre torcidas. A segurança dos vascaínos e dos flamenguistas deve ser tratada como prioridade comum, independentemente das divergências entre as diretorias. Se houver incidentes, a apuração da responsabilidade dependerá das circunstâncias e das atribuições de cada agente, e não de uma condenação antecipada de uma instituição específica.

LEIA MAIS:

CASO PREFIRA OUVIR:

A incoerência de Pedrinho e o silêncio institucional sob questionamento

A principal crítica à decisão de Pedrinho está na distância entre defender os direitos do Vasco e reconhecer que as mesmas exigências de equilíbrio e responsabilidade precisam valer para os dois lados. O clube tem prerrogativas como mandante, mas o uso dessas prerrogativas não o torna imune a questionamentos. A escolha de destinar apenas 10% dos ingressos ao Flamengo, depois de uma divisão igualitária no primeiro turno, pode ser legal dentro das regras aplicáveis e, ainda assim, ser criticada por seus efeitos sobre a isonomia esportiva.

A cobrança sobre os órgãos públicos é diferente, mas igualmente necessária. Ministério Público, policiamento especializado, federação e CBF têm atribuições distintas, e suas decisões não devem ser tratadas como se fossem equivalentes. Ainda assim, quando a segurança serviu de fundamento para intervenções contundentes em uma disputa anterior, é legítimo perguntar quais critérios técnicos sustentam a avaliação atual e se eles foram aplicados com a mesma exigência.

O caso expõe, portanto, duas questões que não devem ser confundidas: o direito do Vasco de indicar o estádio dentro das normas e a obrigação de garantir uma operação segura, com critérios coerentes e transparentes. A crítica à postura de Pedrinho ganha força quando a decisão é comparada ao acordo de divisão de ingressos do primeiro turno; já a cobrança às autoridades exige esclarecimentos sobre a análise de risco e os motivos pelos quais a reação pública foi diferente. O clássico precisa ser organizado sem privilégios, retaliações ou padrões variáveis de segurança. A rivalidade pode explicar o ambiente, mas não deve servir de justificativa para decisões sem transparência ou para a aplicação seletiva de princípios que deveriam valer para todos.

Pedrinho recuou? Presidente do Vasco muda o tom com Bap!

—

+ Siga o Ser Flamengo no Twitter, no Instagram e no Youtube.

Comentários

Descubra mais sobre Ser Flamengo

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Blog Ser Flamengo

Deixe uma resposta