Presentes de céu, terra e mar

Certo dia, há anos, fazia jus à minha estranheza com pitadas antissociais, sentada do lado de fora de minha antiga casa, fitando um flamboyant pela noite, quando veio o Fla na mente… Mengão, sempre me fazendo viajar! Fui me transportando para mais de um século atrás, e por alguns momentos eu pude me imaginar observando o seu zigoto, a sua mórula… e devaneios meus sobre a história que nem todos têm conhecimento…
”Primeiramente, preciso dizer que em minha mente vi a Pherusa* rasgar o mar e por ele ser combatida. O mar não conseguia aceitar a vibração que vinha daquela pequena embarcação. Não podia aceitar que, por mãos humanas, nasceria algo que, de alguma forma, seria tão imenso que faria todos os seus oceanos parecerem ter dimensões desprezíveis. Mas o acidente, intencionalmente produzido pelas furiosas águas, quase nada adiantou. Então o mar, resignado, admirado, aceitou ser o tapete vermelho para o desfile do Rei.
As terras observavam o Rei desfilar nos mares como uma tiete. Encheu-se de despeito, de inveja, de ciúmes do mar. Queria sentir a energia que emanava do Rei Flamengo. Não importava a ela que ele se denominasse Clube de Regatas. Sentia que nela, na terra sólida, o Rei construiria o seu verdadeiro império e arrebataria milhões de súditos. E assim foi feito. Por décadas e décadas, o império tomava formas e dimensões surreais. Terra e mar não brigavam, eram os dois o tapete vermelho do Rei.
O céu infindo observava tudo quase que satisfeito. Digo quase, pois não queria ficar alheio à Nação que se formava, já que a ela não ficava imune. Precisava mostrar-se presente, mesmo que em mínimo detalhe. Então esperou pacientemente até o ano de 1981, quando ornou com uma estrela o escudo militante no Manto que o Galinho de Quintino e cia. defendiam. Assim, céu, terra e mar se fizeram parte para sempre do império da Nação.”
Voltei a mim mesma entorpecida. Reparei que ainda me encontrava ali, defronte ao flamboyant. Tudo se desvelara na minha mente, de forma elucidante. Mas uma lucidez enevoada, lúdica, do tipo que só poetas e sonhadores podem entender. Sorrindo, beijei o escudo do Manto Sagrado que honrosamente me vestia e entrei em casa.
*Pherusa: Nome do primeiro barco do Flamengo comprado pelos remadores que fundaram o Clube.
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