Escritor rebate mito do “time da mídia” e explica como o Flamengo se tornou um fenômeno nacional

Escritor rebate mito do “time da mídia” e explica como o Flamengo se tornou um fenômeno nacional

Poucas frases são tão repetidas no futebol brasileiro quanto a ideia de que o Flamengo se tornou popular graças à mídia. A tese atravessou décadas, ganhou diferentes versões e continua aparecendo em debates esportivos, redes sociais e discussões entre torcedores. Durante entrevista concedida à Brabo TV, o pesquisador Paulo Tinoco, autor do livro Flamengo, o Fenômeno Nacional, apresentou uma série de argumentos históricos para contestar essa narrativa e defender justamente o contrário: a imprensa não criou o Flamengo. Foi o crescimento espontâneo do clube que levou jornais, rádios, artistas e empresas a buscarem associação com a marca rubro-negra.


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A conversa, conduzida por Rafael Penido, Tulio Rodrigues e Cristiano Oliveira, mergulhou em episódios pouco conhecidos da história do clube e revelou como fatores esportivos, sociais, culturais e midiáticos se combinaram para transformar o Flamengo em um fenômeno popular já nas décadas de 1930 e 1940.

A origem de uma narrativa antiga

Ao responder se o Flamengo seria um “fruto da mídia”, Tinoco lembrou que críticas ao crescimento rubro-negro existem há quase um século. Segundo ele, a tentativa de reduzir a dimensão do clube por meio de narrativas depreciativas acompanha o Fla desde que sua torcida começou a se destacar numericamente.

O pesquisador recordou uma fotografia presente em seu livro, tirada após o bicampeonato carioca de 1954, conquistado em 1955. Nela, uma faixa carregada pelos torcedores trazia a frase: “Flamengo, este é o que faz inveja”. Para Tinoco, aquele registro demonstra que a resistência ao crescimento rubro-negro não é recente, mas uma reação histórica à popularidade alcançada pelo clube.

Na avaliação do autor, a lógica foi inversa àquela frequentemente apresentada pelos críticos. A imprensa não escolheu o Flamengo para torná-lo gigante. O interesse da mídia surgiu porque o Flamengo já mobilizava multidões, gerava audiência e despertava enorme atenção popular. Por isso, peças teatrais, programas de rádio, produtos comerciais e campanhas publicitárias passaram a utilizar o nome rubro-negro como elemento de atração de público.

O Flamengo popular antes da televisão

Um dos pontos centrais da argumentação de Tinoco está justamente no período anterior à televisão. Se a popularidade do Flamengo fosse resultado exclusivo dos meios de comunicação modernos, seria difícil explicar a expansão de sua torcida nas décadas de 1930 e 1940.

Segundo o pesquisador, uma sequência de acontecimentos ajudou a impulsionar a presença do clube no imaginário nacional. O primeiro deles ocorreu em 1932, durante a famosa Travessia Rio-Santos realizada por remadores rubro-negros. O episódio mobilizou o país inteiro, ganhou cobertura intensa da imprensa e transformou os atletas em celebridades nacionais. Ao retornarem ao Rio de Janeiro, foram recebidos como heróis por uma multidão que tomou a Praça Mauá.

Na sequência, vieram outros fatores decisivos. A expansão do rádio, o surgimento da Rádio Nacional, a gravação do hino rubro-negro em disco, o tricampeonato estadual dos anos 1940 e, posteriormente, a inauguração do Maracanã criaram um ambiente favorável para que o Flamengo ampliasse sua presença social. A diferença, segundo Tinoco, é que a audiência já existia. A mídia apenas passou a acompanhar um fenômeno que crescia diante dos olhos do país.

ENTREVISTA COMPLETA:

Das provocações elitistas ao orgulho popular

Outro aspecto relevante abordado na entrevista foi a origem de diversos apelidos utilizados de forma pejorativa contra o Flamengo. Tinoco relembrou que, quando o clube se instalou na Gávea em 1938, a região ainda era considerada distante e pouco valorizada. Ao mesmo tempo, surgia nas proximidades a Favela da Praia do Pinto.

A partir desse contexto, rivais passaram a associar o Flamengo às camadas populares de forma depreciativa. Expressões como “favelado”, “mulambo” e outras referências semelhantes surgiram justamente nesse período. O pesquisador destacou que existem inclusive músicas registradas em sua pesquisa histórica com conteúdo explicitamente preconceituoso contra a torcida rubro-negra.

Um exemplo citado foi uma antiga provocação que dizia: “Um time de urubu queria ser campeão”. Em outra ocasião, torcedores do Fluminense chamaram o Flamengo de “torcida do Dragão”, numa referência a uma marca popular de utensílios domésticos. A intenção era clara: associar o clube às classes trabalhadoras em um período em que determinados segmentos do futebol ainda viam a origem popular como motivo de discriminação.

Curiosamente, aquilo que começou como tentativa de ofensa acabou se transformando em um dos principais símbolos de identidade rubro-negra. O que antes era utilizado como ataque passou a representar orgulho, pertencimento e conexão popular.

Artistas, rádio e a construção de uma paixão nacional

Tinoco também apresentou outro elemento fundamental para compreender o crescimento da torcida: a relação do Flamengo com a cultura popular brasileira. Segundo ele, o rádio produziu uma geração de ídolos nacionais que ajudou a ampliar a visibilidade do clube.

Orlando Silva, Ângela Maria, Carmen Miranda e diversas personalidades da música declaravam publicamente sua paixão pelo Flamengo. Revistas da época frequentemente perguntavam aos artistas para qual clube torciam. Em muitos casos, a resposta era a mesma. O pesquisador argumenta que a identificação de figuras extremamente populares com o clube Rubro-negro produziu um efeito multiplicador junto aos admiradores desses artistas.

Ao mesmo tempo, dirigentes como José Bastos Padilha implementavam iniciativas que hoje seriam classificadas como ações modernas de marketing. Campanhas promocionais, concursos populares, eventos públicos e estratégias de aproximação com a população ajudaram a consolidar a marca rubro-negra muito antes de esse conceito se tornar comum no futebol brasileiro.

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O fenômeno veio antes da narrativa

Talvez a principal contribuição da pesquisa de Paulo Tinoco seja mostrar que a história do Flamengo não pode ser reduzida a explicações simplistas. O crescimento da torcida rubro-negra não aconteceu por um único motivo, tampouco pode ser atribuído exclusivamente à ação da imprensa. O processo envolveu conquistas esportivas, personagens carismáticos, transformações sociais, inovação administrativa, presença cultural e uma capacidade singular de dialogar com diferentes segmentos da população brasileira.

Ao reconstruir essa trajetória, o autor apresenta uma conclusão que desafia uma das teses mais repetidas do futebol nacional. O Flamengo não se tornou popular porque apareceu na mídia. A mídia passou a falar cada vez mais do Flamengo porque o clube já havia se transformado em assunto permanente nas ruas, nos rádios, nos carnavais, nos estádios e na vida cotidiana de milhões de brasileiros. Entender essa diferença é fundamental para compreender por que, mais de um século após sua fundação, o Flamengo continua sendo tratado não apenas como um clube de futebol, mas como um fenômeno cultural de dimensão nacional.

Obra “Flamengo – O Fenômeno Nacional” abre pré-venda e revisita a construção cultural do Flamengo

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