Flamengo de 2013: os números desmontam a narrativa de gastança com contratações

Flamengo de 2013: os números desmontam a narrativa de gastança com contratações

A reestruturação financeira iniciada pelo Flamengo em 2013 voltou ao centro do debate depois de comparações feitas por dirigentes e torcedores de outros clubes com medidas adotadas atualmente em Corinthians e Vasco. A discussão ganhou força especialmente após o presidente corintiano Osmar Stábile relacionar a decisão de não renovar imediatamente com Memphis Depay ao movimento realizado pelo Rubro-Negro ao devolver Vágner Love ao CSKA, em 2013. O problema da comparação é que ela reduz um processo muito mais amplo a uma decisão tomada no mercado de jogadores.


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O Flamengo daquela época não estava simplesmente cortando gastos no futebol. A direção que assumiu com Eduardo Bandeira de Mello precisou enfrentar um clube com graves problemas financeiros, renegociar dívidas, reorganizar a estrutura administrativa, ampliar receitas e, sobretudo, recuperar a credibilidade diante de credores e órgãos públicos. A redução das despesas do futebol foi apenas uma parte de uma operação que durou anos.

A narrativa de que o Flamengo montou um time caro e, simultaneamente, fez uma espécie de “calote organizado” ignora justamente os números do período. Em 2013, o Rubro-Negro tinha a nona maior folha salarial entre os clubes da Série A, atrás de equipes como Cruzeiro, São Paulo, Fluminense e Corinthians. A folha flamenguista era cerca de 32% inferior à do Cruzeiro, 31% menor que a do São Paulo, 21% abaixo da do Fluminense e 40% inferior à do Corinthians.

O elenco de 2013 não era o retrato de uma grande gastança

O time campeão da Copa do Brasil de 2013 foi montado com uma combinação de jogadores remanescentes, atletas sem custo de transferência, empréstimos e apostas. Wallace e Chicão chegaram sem pagamento de direitos econômicos, assim como André Santos. Elias veio emprestado pelo Sporting, Carlos Eduardo foi cedido pelo Rubin Kazan e Marcelo Moreno chegou por empréstimo, com parte de seus vencimentos bancada pelo Grêmio.

Outros nomes importantes vieram da própria base ou já estavam no clube, como Luiz Antônio e Léo Moura. Não é possível, portanto, descrever aquela equipe como uma montagem feita a partir de grandes investimentos em transferências. O gasto existia, principalmente em salários e direitos de imagem, mas o padrão era muito inferior ao observado em grandes concorrentes.

O caso de Carlos Eduardo é especialmente ilustrativo. Sem custo de empréstimo, o meia tinha salário de aproximadamente R$ 250 mil, além de despesas de moradia e direitos de imagem que elevavam o custo mensal para perto de R$ 538 mil brutos. Elias recebia em torno de R$ 285 mil, André Santos aproximadamente R$ 280 mil e Marcelo Moreno também cerca de R$ 280 mil, com o Grêmio assumindo uma parcela de sua remuneração.

Esses números ajudam a entender que a estratégia do Flamengo não era simplesmente parar de contratar. O clube passou a operar dentro de uma realidade financeira muito mais restritiva.

Cortar despesas era apenas uma parte da operação

O movimento de 2013 envolveu também saídas. O Flamengo devolveu Vágner Love, negociou atletas como Bottinelli e Cléber Santana e rescindiu contratos com jogadores como Renato Abreu, Ibson, Alex Silva e outros. A intenção era reduzir uma estrutura de gastos que vinha de um período em que o clube mantinha uma das maiores folhas salariais do país.

A diferença estava no método. O Flamengo precisou combinar a contenção imediata com a reorganização de suas dívidas. Em vez de utilizar recursos extraordinários para manter jogadores e ganhar apoio da torcida no curto prazo, a gestão optou por direcionar receitas para resolver compromissos acumulados.

Essa escolha aparece de maneira bastante clara no episódio envolvendo a Adidas. Conforme relatado no livro Futebol como ele é, de Rodrigo Capelo, Bandeira de Mello e o então vice de finanças Rodrigo Tostes foram à Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional logo no início da gestão para apresentar a situação financeira do clube e abrir o fluxo de caixa diante dos credores.

Naquele momento, existia uma possibilidade tentadora. O Flamengo receberia valores referentes à entrada do novo contrato com a Adidas, incluindo luvas. O dinheiro poderia ter sido utilizado para resolver determinadas pendências de curto prazo e manter jogadores no elenco. Vágner Love era um desses casos.

A decisão foi outra. A diretoria preferiu sacrificar benefícios imediatos para preservar a negociação de longo prazo com a Fazenda e reconstruir a saúde financeira do clube.

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O Flamengo não ficou rico de uma hora para outra

Outro ponto frequentemente apagado das comparações é a cronologia dos investimentos. O clube não saiu de 2013 para grandes contratações de maneira imediata.

Em 2014, a política ainda era marcada por jogadores mais acessíveis e oportunidades de mercado. Em 2015, o Flamengo começou a elevar sua capacidade de investimento salarial e trouxe nomes como Guerrero. Em 2016, chegou Diego Ribas. Só a partir de 2017 o clube passou a fazer movimentos financeiros mais robustos, com jogadores como Everton Ribeiro e Diego Alves.

Em 2018, a escala aumentou ainda mais com contratações como Vitinho. O crescimento do poderio esportivo acompanhou a recuperação econômica. Ou seja, primeiro veio o ajuste, depois a expansão. É justamente essa sequência que diferencia a trajetória rubro-negra de uma estratégia baseada apenas em aumentar o investimento esportivo antes de resolver a estrutura financeira.

As “engenharias” também tinham contexto

Há quem use as contratações de Marcelo Cirino e Gabriel para argumentar que o Flamengo também fez investimentos relevantes durante a reestruturação. A comparação, novamente, exige contexto.

No caso de Cirino, a operação envolveu um fundo de investimentos que adquiriu parte dos direitos econômicos do jogador e estruturou um empréstimo ao Flamengo. O compromisso de compra foi levado adiante posteriormente, quando o clube já apresentava uma situação financeira mais equilibrada.

Gabriel também chegou por meio de uma operação com participação de investidores, inclusive de um dirigente da época. São mecanismos que demonstram que o Flamengo encontrava formas de montar um elenco competitivo sem comprometer imediatamente o caixa com grandes desembolsos.

Não se trata de afirmar que tudo foi perfeito. O processo teve erros, decisões questionáveis e contratos que poderiam ser discutidos. O ponto central é outro: a fotografia de 2013 não pode ser separada do filme da década.

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O que a comparação com Corinthians e Vasco revela

O debate atual ganhou força porque outros clubes passaram a enfrentar situações semelhantes de pressão financeira. O Corinthians, por exemplo, anunciou inicialmente que não renovaria com Memphis Depay sob argumento de responsabilidade econômica, mas posteriormente voltou atrás e passou a discutir a continuidade do atacante.

A comparação com 2013 se sustenta apenas superficialmente. O Flamengo não tomou uma decisão isolada de austeridade e, depois, abandonou o plano poucos meses mais tarde. Houve uma reestruturação contínua envolvendo dívida, administração, receitas e futebol.

O Vasco vive um contexto ainda mais delicado, pois atravessa recuperação judicial e simultaneamente precisa lidar com a necessidade de manter competitividade esportiva. O caso recoloca o debate sobre clubes que pretendem aumentar investimento sem antes consolidar sua estrutura financeira.

No futebol, a pressão por resultado é imediata. A torcida quer títulos, contratações e jogadores de peso. Só que a conta chega depois. O Flamengo de 2013 aceitou suportar anos em que o time estava distante da elite esportiva para construir a estrutura que permitiu o salto posterior.

É exatamente essa parte da história que incomoda quando se tenta transformar a reestruturação em uma narrativa de “calote”. O Rubro-Negro não foi salvo por uma contratação milionária, por dinheiro estatal ou por uma explosão repentina de receitas. Houve esforço institucional, renegociação, controle de despesas e tempo.

A maior prova talvez esteja na cronologia: o Flamengo reduziu a folha em 2013, começou a recuperar capacidade de investimento nos anos seguintes e somente depois passou a contratar em patamares compatíveis com sua receita. O aprendizado é menos glamouroso, porém mais importante. Reestruturação financeira exige suportar um período em que o torcedor não colhe imediatamente os frutos. É preciso fechar torneiras antes de abrir novas, reconstruir processos e aceitar que nem todo problema se resolve com uma contratação de impacto.

O Flamengo de 2013 fez exatamente isso. E é justamente por ter passado por esse processo que hoje consegue operar em outra dimensão financeira. Reescrever esse período para justificar a pressa de outros clubes pode ser conveniente. Os números, porém, contam uma história diferente.

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