Mesmo após acordo da Libra, Lavieri volta a defender matéria sobre assinatura de Landim no Flamengo

Mesmo após acordo da Libra, Lavieri volta a defender matéria sobre assinatura de Landim no Flamengo
Imagem: Reprodução / Youtube

A disputa entre Flamengo e Libra sobre a divisão dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro já produziu efeitos financeiros relevantes, repercussão política entre clubes e um intenso debate sobre a formação da futura liga nacional. Mas o caso também expôs algo que vai além do contrato: a dificuldade de parte da cobertura esportiva em reconhecer quando a realidade documental desmonta uma narrativa previamente construída.


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Mesmo após o acordo que garantiu ao Flamengo cerca de R$ 150 milhões adicionais até 2029 e, principalmente, depois da definição formal dos critérios de rateio dos 30% referentes à audiência, o jornalista Danilo Lavieri voltou a defender publicamente a reportagem que sustentava que Rodolfo Landim havia assinado integralmente a regra e que o clube, já sob a gestão de Bap, estaria tentando alterar o combinado. A insistência chama atenção porque o próprio desfecho do caso confirma justamente o argumento rubro-negro: o critério estava incompleto e precisou ser formalmente definido depois.

O debate, portanto, deixou de ser apenas sobre quem recebe mais ou menos dinheiro na Libra. Passou a ser também sobre responsabilidade jornalística, precisão histórica e o risco de transformar uma frase de efeito em verdade permanente de arquivo.

O peso da frase “Landim assinou”

Durante meses, a principal linha de argumentação usada contra o Flamengo foi simples e poderosa: “Landim assinou”.

A frase ganhou força porque oferece uma conclusão rápida. Se assinou, concordou. Se concordou, não poderia questionar depois. A nova gestão, nessa lógica, estaria apenas tentando rever uma decisão já consolidada.

Foi essa a base de diversas reportagens e comentários, especialmente na cobertura de Danilo Lavieri, que tratou a assinatura como prova suficiente de concordância plena com os critérios de divisão da audiência. A narrativa foi absorvida por boa parte do debate público e ajudou a consolidar a percepção de oportunismo rubro-negro.

O problema é que a frase era forte, mas incompleta. Landim assinou o estatuto aprovado em setembro de 2024, quando a Libra formalizou a estrutura da divisão 40-30-30. Porém, dentro dos 30% referentes à audiência, o ponto central ainda não estava resolvido: faltava a definição do peso de cada plataforma de transmissão dentro da conta final.

Em outras palavras, existia o princípio da divisão por audiência, mas não a fórmula operacional completa. Não se sabia, oficialmente, quanto valeria TV aberta, TV fechada, pay-per-view e demais plataformas dentro do cálculo final .

Essa ausência não era detalhe técnico. Era o próprio coração da disputa.

Quando a própria Globo pergunta como deve pagar

A melhor prova de que a fórmula não estava concluída veio da própria executora do contrato.

Em abril de 2025, a TV Globo notificou a Libra para saber como deveria realizar o pagamento da primeira parcela relativa aos 30% da audiência. A pergunta, por si só, desmonta a tese de que tudo já estava plenamente definido desde 2024.

Se a emissora precisava perguntar como pagar, é porque o modelo não estava operacionalizado. Se estivesse pronto, não haveria dúvida. A Libra não conseguiu responder com clareza porque o estatuto exigia unanimidade para a complementação do Anexo 1, justamente aquele que tratava da fórmula final de rateio por plataforma. Como não havia consenso entre os clubes, a instrução formal não existia .

Esse ponto é decisivo e costuma ser ignorado quando se reduz tudo à frase “assinou”. Não havia fórmula fechada. Havia um acordo incompleto.

Fevereiro, maio e agosto: a cronologia que desmonta a narrativa

Em fevereiro de 2025, já na gestão Bap, o Flamengo levou o tema à primeira assembleia e pediu que fosse aprovada a fórmula de rateio por plataforma prevista no Anexo 1. A própria Libra apresentou cinco cenários possíveis.

Esse detalhe é revelador. Se havia cinco cenários em debate, é porque nenhum estava definitivamente aprovado. Não se discute cinco alternativas sobre algo que já estaria encerrado juridicamente . Em maio, uma nova reunião foi convocada especificamente para deliberar sobre os parâmetros de audiência. No dia 16, além dos cinco cenários da Libra, o Flamengo apresentou um sexto modelo. A reunião foi suspensa e remarcada para agosto.

Antes da conclusão formal, em julho, a Libra instruiu a Globo a realizar o pagamento com base no cenário 1, que não havia sido aprovado por unanimidade. O Flamengo notificou imediatamente a Libra e a emissora apontando o pagamento como indevido. Em agosto, os demais clubes aprovaram o cenário 1, enquanto o Flamengo votou pelo cenário 6. Como não houve unanimidade, exigida pelo estatuto, a adoção seguia juridicamente questionável .

Essa cronologia destrói a ideia de que o Flamengo queria mudar uma regra pronta. O clube estava questionando justamente a tentativa de transformar uma regra incompleta em regra definitiva.

O acordo final e a prova prática

O desfecho foi ainda mais eloquente que o debate.

O Flamengo garantiu aproximadamente R$ 150 milhões adicionais até 2029, em parcelas anuais de R$ 37,5 milhões corrigidas pelo IPCA. Além disso, foi finalmente estabelecido o peso das plataformas: 60% para TV aberta, 5% para TV fechada e 35% para pay-per-view.

Essa definição posterior vale mais do que qualquer discurso. Se o critério precisou ser formalizado depois, então ele não estava definitivamente aprovado antes. Não se redefine o que já estava fechado. Não se corrige o que já estaria completo.

O próprio acordo confirma a tese que o Flamengo sustentava desde o início. E é justamente aí que a insistência de Lavieri se torna mais problemática.

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Mesmo assim, Lavieri insiste

Após o acordo e diante da definição formal dos critérios, o caminho mais natural seria reconhecer que havia, no mínimo, uma complexidade maior do que a narrativa inicial sugeria.

Mas não foi isso que aconteceu. Lavieri voltou a defender sua matéria e manteve a linha de que Landim havia assinado e que a posição posterior do Flamengo continuava sendo uma tentativa de rever o combinado. A insistência não está em sustentar uma opinião, mas em manter como verdade absoluta uma formulação que a própria cronologia enfraqueceu.

Revisar uma leitura diante de novos fatos não é fraqueza jornalística. É obrigação profissional. O problema não é errar. O problema é transformar o erro em arquivo permanente. Daqui a alguns anos, alguém pode pesquisar o caso e encontrar apenas a manchete original, sem o devido contexto posterior, como se ela fosse o retrato fiel da realidade.

E isso contamina a memória do debate.

PVC e a construção da percepção pública

Antes mesmo da matéria de Lavieri, PVC já havia reforçado essa linha ao escrever que o Flamengo havia “assinado” e ao levantar questionamentos sobre decisões do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro favoráveis ao clube. Em outro momento, utilizou até a provocação “assinou e não leu”, ajudando a cristalizar a ideia de irresponsabilidade rubro-negra .

Esse tipo de abordagem tem impacto porque simplifica. É muito mais fácil vender moralidade do que explicar estatuto, unanimidade, anexos contratuais e notificações da Globo. Mas o jornalismo não deveria escolher o caminho mais fácil. Deveria escolher o mais preciso.

Quando a cobertura abandona a complexidade para sustentar uma sentença pronta, ela deixa de informar e passa a fabricar personagem.

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O caso Libra como aula de jornalismo

Talvez a maior lição de todo esse episódio esteja justamente fora do campo financeiro.

O caso Libra mostra como o jornalismo esportivo pode escolher entre dois caminhos: apurar documento, entender cronologia e aceitar nuances, ou simplificar tudo em uma frase forte que viraliza mais rápido. A narrativa da assinatura funcionava bem porque era simples.

A realidade era mais trabalhosa. E a realidade venceu. O Flamengo não provou que podia mudar regra pronta. Provou que a regra não estava pronta. Essa diferença muda tudo. Mesmo após o acordo, a insistência em defender a tese anterior revela menos sobre o contrato da Libra e mais sobre como parte da imprensa ainda resiste a admitir quando o documento desmente a narrativa.

No fim, a pergunta já não é apenas sobre Landim. É sobre quem, diante da prova, ainda prefere proteger a manchete em vez da verdade.

Lavieri insiste na versão da Libra e amplia crise de credibilidade no caso da assinatura de Landim

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