Quem é pai de quem? Livro resgata a participação importante de quatro rubro-negros na criação do Fluminense

Poucas rivalidades do futebol brasileiro carregam uma carga histórica tão rica quanto o Fla-Flu. O clássico que atravessa gerações não nasceu apenas dentro das quatro linhas. Sua origem está ligada a personagens comuns, amizades, projetos esportivos compartilhados e até mesmo a dirigentes que ajudaram a construir os dois clubes. Durante entrevista à Brabo TV, o pesquisador Paulo Tinoco apresentou documentos e fatos históricos que desafiam uma das narrativas mais difundidas entre torcedores do Fluminense: a de que o clube das Laranjeiras seria o “pai do Flamengo“.
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Autor do livro Flamengo, o Fenômeno Nacional, atualmente em pré-venda, Tinoco dedicou um capítulo inteiro da obra à história do Fla-Flu. Segundo ele, a documentação histórica disponível não apenas enfraquece essa tese como revela uma realidade inversa àquela frequentemente propagada nas discussões entre torcedores. A pesquisa mostra que rubro-negros participaram diretamente da fundação do Fluminense, que as primeiras reuniões do clube ocorreram em instalações ligadas ao Flamengo e que personagens fundamentais da história tricolor possuíam fortes vínculos com o clube da Gávea.
Os quatro rubro-negros na fundação do Fluminense
A principal revelação apresentada por Tinoco envolve a própria criação do Fluminense, em 1902.
Durante décadas, tornou-se comum ouvir que o Flamengo teria surgido a partir de uma dissidência tricolor ocorrida em 1911. Embora o episódio da migração dos jogadores seja real e importante para a história rubro-negra, o pesquisador destaca que a cronologia dos acontecimentos demonstra que os laços entre os dois clubes começaram muito antes.
Segundo a pesquisa apresentada na entrevista, quatro rubro-negros participaram diretamente da fundação do Fluminense. Tinoco faz questão de corrigir uma informação frequentemente repetida de forma equivocada, segundo a qual seriam apenas três. Os registros históricos apontam a presença de quatro associados ligados ao Flamengo no grupo fundador tricolor.
A informação ganha ainda mais relevância quando se observa que esses personagens não eram figuras secundárias. Alguns deles exerceram funções decisivas na estruturação administrativa e organizacional do novo clube.
As primeiras reuniões aconteceram no Flamengo
Outro dado pouco conhecido apresentado durante a conversa envolve o local onde ocorreram algumas das primeiras reuniões do Fluminense.
De acordo com Tinoco, registros históricos apontam que encontros relacionados à organização inicial do clube das Laranjeiras foram realizados na própria sede do Flamengo. O fato ajuda a compreender a proximidade existente entre as duas instituições nos primeiros anos do século XX, período em que o ambiente esportivo carioca possuía dimensões muito menores do que as atuais.
Naquele momento, dirigentes, atletas e associados frequentemente circulavam entre diferentes modalidades esportivas e mantinham relações pessoais bastante próximas. A rivalidade que hoje movimenta multidões ainda estava longe de atingir o grau de intensidade que seria construído ao longo das décadas seguintes.
Virgílio Leite: um nome fundamental para os dois clubes
Entre os personagens destacados por Paulo Tinoco, nenhum chama mais atenção do que Virgílio Leite.
Presidente do Flamengo em 1911, Virgílio também teve papel relevante na estruturação do Fluminense. Segundo o pesquisador, ele participou diretamente do processo de organização tricolor, ajudando inclusive na elaboração do estatuto do clube e na indicação de Oscar Cox para a presidência da nova agremiação.
A importância de Virgílio para a história das Laranjeiras é tamanha que Tinoco chega a afirmar, em tom descontraído durante a entrevista, que o dirigente mereceria até uma estátua no Fluminense.
A observação ajuda a ilustrar um aspecto frequentemente ignorado nas narrativas contemporâneas. Nos primeiros anos do futebol carioca, Flamengo e Fluminense possuíam relações institucionais muito mais próximas do que se costuma imaginar atualmente.
ENTREVISTA COMPLETA:
O futebol rubro-negro antes de 1911
Outro ponto importante levantado pelo pesquisador diz respeito à própria origem do futebol no Flamengo.
Tradicionalmente, a história oficial registra a criação do departamento de esportes terrestres em dezembro de 1911, após a chegada dos jogadores oriundos do Fluminense. Entretanto, Tinoco afirma ter encontrado registros de partidas disputadas pelo Flamengo em 1903 e 1904, ainda em caráter não oficial.
Segundo sua pesquisa, o clube já experimentava atividades ligadas ao futebol antes mesmo da formalização do departamento que posteriormente daria origem à equipe profissional.
Essa constatação é relevante porque demonstra que o futebol não surgiu exclusivamente a partir da chamada “cisão de 1911“. O episódio teve enorme importância para a institucionalização da modalidade no clube, mas não representa o primeiro contato rubro-negro com o esporte.
O caso de 1911 visto por outro ângulo
Talvez o trecho mais provocativo da entrevista tenha sido justamente a releitura da famosa migração de jogadores do Fluminense para o Flamengo.
Ao contrário da narrativa tradicional que sugere que o Flamengo teria recebido um time pronto vindo das Laranjeiras, Tinoco propõe uma interpretação diferente. Segundo ele, o personagem central daquele processo era Alberto Borgerth, remador rubro-negro que atuava no Fluminense e que se tornou o principal articulador da criação do departamento de futebol do Flamengo.
Na visão apresentada pelo pesquisador, o Flamengo não recebeu simplesmente uma equipe adversária. O clube recuperou um de seus próprios associados, que retornou para organizar oficialmente uma modalidade que já despertava interesse interno havia alguns anos.
A leitura modifica significativamente a forma como o episódio costuma ser contado e reforça a tese de que as relações entre os dois clubes eram muito mais entrelaçadas do que a rivalidade atual permite enxergar.
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CASO PREFIRA OUVIR:
O nascimento do maior clássico do Brasil
A entrevista também abordou a formação do Fla-Flu como fenômeno cultural. Para Paulo Tinoco, trata-se do maior clássico da história do futebol brasileiro, não apenas pelos confrontos em campo, mas pelo conjunto de elementos culturais, sociais e históricos que cercam a rivalidade.
O pesquisador relembrou que a expressão “Fla-Flu” ganhou força especialmente após a seleção carioca campeã brasileira de 1925, formada majoritariamente por atletas de Flamengo e Fluminense. No entanto, a própria terminologia já aparecia anteriormente em clubes e associações esportivas que utilizavam o nome “Fla-Flu” antes mesmo daquela conquista.
Essa riqueza histórica ajuda a explicar por que o confronto entre rubro-negros e tricolores transcende a disputa esportiva. O clássico reúne personagens compartilhados, capítulos comuns e uma trajetória que se confunde com o desenvolvimento do próprio futebol carioca.
Ao resgatar documentos, estatutos, atas e registros históricos, Paulo Tinoco não pretende diminuir a importância do Fluminense. O objetivo é compreender a história a partir das evidências disponíveis. E os documentos analisados apontam para uma conclusão clara: a relação entre os dois clubes nasceu marcada pela cooperação, pela convivência e pela participação de rubro-negros em momentos fundamentais da formação tricolor.
Diante desse contexto, a ideia de que o Fluminense seria o “pai do Flamengo” parece muito mais próxima de uma provocação de arquibancada do que de uma definição historicamente sustentável. Se existe uma certeza produzida pelos documentos apresentados na entrevista, é que a história do Fla-Flu é muito mais rica, complexa e fascinante do que qualquer slogan criado pela rivalidade permite resumir.
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