Série Velho Maraca – A Roupa Nova do Rei

Arte de Paulo Sérgio (@Pausse)

Texto de Arthur Muhlenberg feito a convite do Blog Ser Flamengo

Em 1979 eu era um revoltado contra o sistema, como qualquer saudável moleque de 15 anos. Minha grande indignação era motivada por três coisas: inadequação do currículo escolar, filmes censurados para menores de 18 anos e a inexplicável recusa da crítica especializada em admitir que o Flamengo, que ainda não tinha nenhum Campeonato Brasileiro, era o melhor time do mundo e que Zico era o maior jogador em atividade no planeta. Fato que se deu apenas 2 anos após os acontecimentos que relato a seguir.

Após fortes tempestades que causaram terríveis inundações em Minas Gerais o Flamengo e o Atlético jogariam um amistoso no Maracanã com renda revertida para as muitas vítimas da violência pluvial das águas de março nas Alterosas. A grande atração do jogo seria a presença de Pelé jogando pelo Flamengo. Finalmente o Maior do Mundo no maior do Mundo jogando pelo Maior do Mundo. A expectativa na cidade era gigante. Todo mundo queria ver esse jogo e os ingressos tiveram que ser comprados com antecedência, coisa muito rara naquele tempo.

A partida seria numa quarta-feira à noite e fui direto do colégio para o Maracanã. O apito inicial estava marcado para as 9 da noite, mas antes das 7 as imediações do Maracanã já eram intransitáveis. Engarrafados no congestionamento monstro eu e os outros moleques decidimos descer do ônibus ainda antes do viaduto Oduvaldo Cozzi e continuar o resto do caminho a pé. 

Ao chegar no Beline uma multidão se espremia para alcançar as roletas. A PM, sempre prestativa e bem preparada, tentava organizar o acesso dos cidadãos que compraram ingresso do alto de seus cavalos mandando a borracha indiscriminadamente em quem estivesse ao seu alcance. Para escapar da gentileza da Briosa nosso grupo se dividiu e cada um tentou encontrar a forma mais segura de se enfiar pra dentro do estádio.
Na época eu media pouco mais de metro e meio, me espremendo um pouco não era difícil evoluir ameba humana adentro. Avancei um bom pedaço até topar com os degraus da pequena escadaria que antecede as roletas. Nesse ponto do crowd a multidão era ainda mais compacta e parecia mover-se aleatoriamente. Entre um degrau e outro perdi completamente o controle dos meus movimentos.

Imprensado no bololô fiquei com os dois pés fora do chão e por alguns minutos, que provavelmente devem ter sido alguns segundos, beirei o pânico por estar totalmente à mercê de uma multidão que, mesmo não sendo violenta, não inspirava nenhuma confiança. Se alguém caísse ali naquele amistoso conflito certamente seria pisoteado.

Milagrosamente, e sem tocar os pés no chão, retomei o avanço em direção às absurdamente imbecis barras de ferro conduzido pela turba ávida por futebol. Depois de mais um perrengue para não ficar espetado em uma daquelas barras cruzei a finalmente a roleta. Tamanha era a excitação do povaréu que passei voado, entrei sem ter meu ingresso sequer destacado pelo bilheteiro do saudoso Quadro Móvel da Suderj. 
Depois de reencontrar os amigos e finalmente chegar ao nosso tradicional setor nas arquibancadas já eram 8 horas da noite e simplesmente não havia mais lugar para ninguém sentado. O único recurso era se agachar entre um lance de arquibancada e outro e permanecer ali naquele espaço, incomodando logo dois torcedores de uma vez só. Mas era assim que se alcançavam os recordes de público naquele tempo. Naquela noite registraram-se 139.953 pagantes, mas quantas pessoas realmente estavam no estádio jamais saberemos. Mas pode ter certeza que era muito mais que isso.
Mas o desconforto pouco durou. Bastou que o Flamengo entrasse em campo para que todo o estádio se pusesse de pé e assim permanecesse até o fim do jogo. Pelé em campo era seguido por uma horda de fotógrafos e das arquibancadas mal conseguíamos velo. Foi preciso que o jogo começasse para que finalmente pudéssemos desfrutar da imagem mítica do Negão envergando o Manto. Uma imagem que guardo na memória até hoje.

O jogo começou com o Atlético fazendo uma gracinha e abrindo o marcador. O Flamengo, reverente, sempre entregando a bola e deixando para o Rei a prerrogativa de decidir por onde o Flamengo avançaria. Mas o Rei, que ainda não tinha 40 anos, já era então muito mais uma celebridade mundial do que qualquer outra coisa. A responsabilidade para virar aquele jogo teria que ser de Zico, Júnior e cia. E de Júlio César, que foi o grande nome da partida.

Impossível de ser marcado na ponta-esquerda, Uri Geller deu tantos dribles, fez tantas estripulias com seus marcadores que acabou tendo que sair antes da hora de tanta porrada que levou. E olha que era amistoso, hein. Mesmo sem Julinho o Flamengo acabou impondo sua maior categoria. A reação começou com um pênalti em que Zico fez questão de entregar a bola nas mãos de Pelé para que ele se encarregasse da cobrança. Gentileza refugada pelo monarca, que a devolveu às mãos de Zico. Sem alternativas, Zico bateu e guardou.
Pelé cansou e foi substituído por Luisinho das Arábias. Eu nunca tina visto Pelé jogar em um estádio e não estava achando grande coisa. Parece até conversa fiada de flamenguista, mas bastou Pelé sair pro Flamengo se agigantar e golear impiedosamente ao Atlético. Zico fez mais 3 gols, Lusinho deixou o dele e Cláudio Adão fechou a conta. Goleada acachapante da qual, hoje sabemos, o Atlético cultiva uma úlcera que já dura 34 anos. E contando.
Uma noite perfeita, o jogo mais bombado que eu até então tinha presenciado, uma consagração antecipada do grande time do Flamengo que chegou ao topo do mundo. Um dos jogos mais marcantes da minha vida. E se foi um dia marcante para mim, imagina pro Pelé. Consagrado no mundo inteiro, melhor jogador de todos os tempos, mas no fundo do seu coração ele sabia que até esse dia histórico o Rei sempre esteve nu.

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