Série Velho Maraca – OBRIGADO, DOUTOR SÓCRATES!

Texto de Marcos Eduardo Neves feito a convite do Blog Ser Flamengo
A minha relação com o Flamengo começou a se solidificar graças a dois fatores: o alvinegrismo de meu pai, botafoguense, e o doutor Sócrates. Explico. Quando tinha entre 5 e 6 anos, pela primeira vez entrei no Maracanã. Meu pai me levou ao primeiro jogo das quartas de final do Campeonato Brasileiro de 1981. O Botafogo dele, fora, e do Mendonça dentro de campo enfrentava o Flamengo de Zico nas quatro linhas e de uma massa gigantesca, verdadeiramente colossal, no anel das arquibancadas.
Meu pai me conduziu ao ex-maior estádio do mundo dizendo que eu ia gostar bastante, que seria divertido, que eu sentiria a emoção de ver um gol no Maracanã. Sentei-me ao lado do velho e de seus amigos alvinegros. Na minha frente, via a festa da torcida do Flamengo, aquele mar de gente colorindo o estádio de vermelho e preto.
O primeiro tempo acabou sem gols. Fiquei chateado: 45 minutos e nenhuma grande emoção. Veio o segundo tempo. O juiz deu o apito final à partida, e o zero a zero teimou em se perpetuar no placar. Que decepção. Eu fui até lá para ver gol e não vi necas. Meu pai e seus amigos gritavam: “Cadê o campeão brasileiro?” “É esse time que quer ser campeão da Libertadores?” E vibravam, felizes e contentes com o 0 a 0.
Eu não. Vibrar por quê? Não vi o tão sonhado gol e, de imediato, me identifiquei com a massa rival. Sentia-me como os rubro-negros, insatisfeitos com o empate sem sal. O lado botafoguense da arquibancada fazia festa; os rubro-negros vaiavam. Por fora, não entendi o porquê de tanta comemoração na torcida de meu pai e de seus amigos. Por dentro, vaiava o que vi. Estava com os flamenguistas e não abri. Fiquei com a mesma sensação deles.
Apenas cinco anos e pouco depois, em janeiro de 1987, voltei ao Maracanã. Já com meus 11 anos, quase 12. Fui com o porteiro de um prédio vizinho, o Roberto, flamenguista roxo. Ficamos ao lado da Raça Rubro-Negra, numa festa de ritmos e coros do começo ao fim. Em campo, Flamengo x Vitória – jogo mais rubro-negro impossível! Começa o jogo.
Para minha felicidade, vi não um, mas dois gols. Ambos de Sócrates. O craque inesquecível do Corinthians, titular daquela superseleção de 1982, quebrou minha virgindade de bola nas redes. O Flamengo venceu por 2 a 0, com dois gols do Doutor. Pude apreciar de perto seu futebol elegante e decisivo.
Assim, com a morte de Sócrates, em 2011, um pouco da minha história se foi com ele. Aquela inocência, quando não via o futebol com os olhos de hoje. Eu tinha mais paixão, mais devoção. Hoje sou cético. Não só em relação ao meu time, como ao que acontece em volta, nos bastidores e nas adjacências desse mundo onde as cifras falam mais alto do que o coração.
Por muito tempo achei que o primeiro gol a que assisti na vida foi marcado pelo Gilmar Popoca num Flamengo 1 x 1 Atlético-MG (marcou o do Galo o zagueiro Batista, de bicicleta). Revendo a listagem dos jogos de Sócrates pelo Flamengo, revi o erro e dei glória aos céus. Nada contra o Popoca, boa figura. Mas é muito melhor saber que foi um gênio da bola, um craque dentro e fora dos gramados, quem conduziu meu batismo no templo maior do futebol.
A propósito, que azar deu meu pai. Aquele empate sem gols foi o primeiro jogo de dois duelos protagonizados entre Botafogo x Flamengo, como dito, pelas quartas do Brasileirão de 1981. No jogo seguinte, o Mendonça entortou o Júnior, e o Botafogo avançou, eliminando o Rubro-Negro com indefectíveis 3 a 1. Se o velho tivesse esperado poucos dias para me levar a esse segundo confronto, fatalmente eu seria alvinegro até hoje.
Azar do meu pai, sorte minha. Valeu, velho, pelo erro. E valeu, doutor, pela bela iniciação.
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Acompanhe a Série “Velho Maraca”:
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- O Maracanã era um mar
- Aqui é Flamengo, Tchê!
- Lembranças marcantes
- A alma do Maracanã
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